Há qualquer coisa de adolescente neste FC Porto, fulgurante e ao mesmo tempo desmedido. Esta época tem passeado todo o potencial e qualidade do seu futebol de alta intensidade, circulando a bola e inundando as defensivas adversárias de inúmeras oportunidades de golo, liderando a Liga com imponência e, até hoje, imbatível na Liga Europa. No entanto, o jogo desta tarde veio demonstrar um defeito que este Porto começou a apresentar desde a categórica vitória sobre o Nacional da Madeira em jogo antecipado da 20ª jornada. A ansiedade e a falta de frieza nos momentos chave do jogo têm transformado jogos de dominância em potenciais escorregadelas e hoje o Sevilla aproveitou o que Braga e Rio Ave não conseguiram aproveitar. À intensidade que imprime nos momentos iniciais da partida, o Porto contrasta com distracções absolutamente juvenis e que podem desmoralizar qualquer grupo de trabalho. Neste aspecto André Villas-Boas precisa definitivamente de trabalhar os seus jogadores, para que assumam o jogo com outra maturidade e outra capacidade de gestão. Não se pode jogar sempre a 100 à hora, é preciso saber gerir os ritmos de jogo, colocar gelo no momento certo e fazer a bola circular enervando o adversário, levando-o a cometer erros. O jogo de hoje foi a demonstração que é preciso pensar mais e não correr tanto, até porque o cansaço não é amigo de boas ideias, que o diga Álvaro Pereira.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
O profissional
Acorda-se bem cedo, ainda o dia mal se instalou e o corpo parece pesar mais de uma tonelada ao descolar-se do colchão. Lava-se a cara, acordam-se as crianças, prepara-se o pequeno-almoço e em menos de 30 minutos já está no carro a caminho do treino. São 7:45, o treino é só às 10:00, o que quer dizer que tem cerca de duas horas para preparar o corpo e a mente para nos 90 minutos de treino conjunto estar pronto para explodir e ultrapassar os seus limites. São duas horas que podem começar de formas diferentes, se estiver com cansaço acumulado da semana ou jogo, uma sessão de massagens para soltar o ácido láctico dos músculos enquanto se passeia a vista pelas notícias ou se fala com o massagista. Já com o corpo solto é hora de passar pelo ginásio, sozinho ou em pequeno grupo trabalha-se com o Personal Trainer grupos musculares específicos, tal como previsto no plano de treino, puxa-se um bocadinho pelo corpo, puxa-se pelo espírito dos colegas que também se debatem contra o ferro, cria-se alma de grupo e o corpo já vai mais emproado para a relva. Toca-se pela primeira vez na bola, amiga de sempre, remata-se à baliza, dá-se uns toques e soltam-se uns passes. Ensaiam-se movimentos entre 3 ou 4 jogadores que se têm trabalhando com insistência nos últimos dias, trocam-se impressões… São 10:00, entra a equipa técnica completa sobe ao relvado e durante 90 minutos a concentração é a de uma final da Champions. Acaba o treino, depois do merecido duche segue-se para um almoço de atleta, preparado e equilibrado nutricionalmente por um especialista tendo em conta as características metabólicas do atleta. Não é o melhor sabor do mundo, mas o corpo de um atleta é como um carro, com combustível fraco não vai tão longe, não vence corridas. Depois do almoço é tempo de recuperar de novo o corpo, pode ser uma pequena sesta relaxada, pode ser nova massagem, pode ser um banho revitalizador, pode ser uma sessão de reiki ou de acupunctura, tudo depende das características e orientações dadas pelos especialistas do clube. Regressa-se ao centro de treino, analisa-se teoricamente o próximo adversário, corrigem-se aspectos menos bons da equipa, discute-se, envolvem-se todos os jogadores na construção da ideia de jogo da equipa sob orientação do técnico, capaz de ouvir o que o jogadores têm para dizer, contrapor-lhes com ideias opostas, problematizar, potenciar sinergias e forças que cada profissional tem para dar. Calçam-se as botas e trabalham-se detalhes e pormenores maiores que decidem jogos e títulos. Toma-se banho e amanhã há mais do mesmo. Agora relaxa-se um pouco, vai-se buscar os filhos à escola, vai-se às compras, leva-se um filme, um livro ou outra coisa qualquer. Junta-se a família, janta-se, conversa-se, partilham-se as histórias de cada um. Deita-se os filhos, abraça-se a mulher e no fim dá-se descanso ao corpo que dentro de 7/8 horas torna a pesar toneladas para levantar do colchão, mas que à flor do relvado é como um bailarino alado em busca da glória.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Alerta vermelho em Alvalade
Foram 90 minutos desesperantes para qualquer adepto leonino, tal a impotência dos comandados por Paulo Sérgio para desfeitearem um Benfica reduzido a dez unidades ao cair do pano do primeiro tempo. De facto, o Sporting foi mais perigoso quando o Benfica ainda contava por onze os seus elementos em campo, conseguindo aproveitar bem o calcanhar de Aquiles dos encarnados esta temporada, a transição ataque-defesa ainda órfã da qualidade de Ramires. Foi esta exploração dos defeitos do adversário que deu hipóteses ao Sporting de vencer a partida, mas foi também esta estratégia que impossibilitou a sua vitória. Ou seja, quando o Benfica ainda tinha de ir atrás da imperiosa conquista dos três pontos em jogo, o Sporting podia atacar essa lacuna na transição defensiva dos encarnados e fê-lo com perigo, dominando o pendor ofensivo do jogo. Mas conseguindo colocar-se à frente do marcador e com menos um elemento em campo, o Benfica apresentou-se muito cauteloso na segunda metade da partida, recuando bastante e expondo-se menos ao contra-ataque do Sporting. Com a bola em seu domínio e contra uma defesa compacta e organizada como a dos encarnados, o Sporting mostrou mais uma vez a incompetência e a desorganização do seu futebol, demasiado má para beliscar os planos de Jesus. O Benfica não massacrou, longe disso, foi mais o Sporting que massacrou os seus adeptos com tão mau futebol. Do princípio ao fim os jogadores leoninos caíram na armadilha do fora-de-jogo e demasiadas vezes tentaram o cruzamento para o ponta-de-lança, abandonado à sua sorte no meio das torres do Benfica. Matías foi o mais esclarecido, tentou puxar a bola para o centro e conseguiu esboçar alguns lances de eventual perigo, mas muito desacompanhado. Postiga teve um dia péssimo, completamente perdido posicionalmente, Cristiano e Yannick foram iguais a si próprios com arrancadas fulgurantes inconsequentes e péssimas decisões aquando de soltar a bola. Grimi continua a viver uma vida de – parafraseando Carlos Queiróz – ex-jogador no activo, porque além de limitado é mau profissional. Com Carriço e Valdes de fora, os leões foram presas demasiado fáceis.
Por outro lado, no Benfica nem tudo são rosas. É gritante a diferença de jogo dos encarnados com Aimar e sem este, quando Martins assume a batuta do meio-campo encarnado. O argentino é o jogador mais inteligente do campeonato e Martins… é Martins (o Zidane mental do futebol português). Na transição defensiva o Benfica é permanentemente colocado em apuros e só a cada vez mais perfeita organização defensiva mantém o caminho para as redes de Roberto de difícil acesso. Roberto é mais problema do que solução e a sua qualidade é demasiadas vezes colocada em questão com decisões péssimas aquando do momento de fazer mais do que defender remates. No entanto, o campeão nacional tem virtudes que maquilham os seus poucos defeitos e o cansado dragão ainda vai ter de aguentar mais algum tempo até poder festejar porque nem a deslocação a Braga na 22ª jornada parece ser ameaça suficiente para travar a sequência vitoriosa das águias. Temos campeonato, emocionante e com duas excelentes equipas a lutar pelo título, pena que não sejam três, mas em Alvalade tenta-se tocar violinos com treinadores de heavy-metal.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
O grande derby de Lisboa
Os jogos do fim-de-semana passado e da jornada europeia serviram para sublinhar o momento actual das principais equipas do futebol português. O Sporting empatou ambos os jogos e realçou o momento difícil que vive, ao passo que o Porto manteve a senda vitoriosa com pouco brilho e alguma sorte ao sair vencedor de dois jogos extremamente complicados. O Benfica surge nesta altura da época como a equipa que melhor futebol pratica em Portugal. Paga no entanto com os erros do início de temporada acumulando uma distância talvez demasiado grande para o líder azul. O jogo de amanhã coloca frente a frente os dois clubes mais emblemáticos da capital portuguesa, que se encontram em pontos futebolísticos muito distintos. O Sporting arca o peso de uma época desgastante quer a nível directivo, quer a nível desportivo. Os adeptos leoninos aguardam com espectativa o futuro que as próximas eleições irão trazer. Sem a euforia de outros tempos o Sporting de amanhã terá de entrar bem no jogo e assumir o seu comando de forma a manter jogadores e adeptos moralizados para a vitória. Um golo madrugador do Benfica atiraria ao tapete a deprimida facção sportinguista, mas a pressão também tem o seu peso para os lados da Luz. Os comandados de Jesus arcam com a responsabilidade de vencer no terreno da sua némesis de forma a encurtar para 8 pontos a distância para o líder e sustentar por mais umas jornadas o sonho da revalidação do título. Para além de toda a atmosfera histórica de rivalidade que o derby Sporting-Benfica acarreta consigo, o de amanhã coloca em campo o orgulho leonino contra a última esperança encarnada de chegar ao título, restando saber se o orgulho desorganizado do Sporting será capaz de derrubar a ambição artística dos encarnados. A aposta do Magnífico Overlapping vai para uma vitória encarnada, que relance a disputa do campeonato e que agregue os sportinguistas para a revolução que tanto precisam.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
O ponta-de-lança perfeito
Na ressaca da saída do veterano Liedson do Sporting, relembramos que o ponta-de-lança mais talentoso da liga portuguesa se chama Radamel Falcao. Contrariamente ao brasileiro, Falcao não é tão vedeta, não tem tantos golos no seu historial, mas contribui muito mais para a produção ofensiva da sua equipa. As suas movimentações dentro e fora de área, contribuem decisivamente para o estado de graça que hoje se vive no reino do dragão, renegando o papel de estrela mais cintilante, mas sendo o motor ofensivo do melhor ataque da competição portuguesa. A sua ausência em muito poderá explicar o eclipse do Porto espectáculo nos últimos jogos. Presentemente é o melhor marcador da Liga Europa, mostrando que nos palcos mais exigentes o seu futebol tecnicista é superior ao de Hulk, bem mais físico e carente de mais espaço, ao passo que o colombiano cria espaço onde não há espaço abrindo a porta aos colegas. Dificilmente o Porto conseguirá segurar tanto talento no futebol português, por isso é melhor apreciar enquanto Falcao por cá voar. Provavelmente não terá bancadas cheias a chorar a sua partida, como Liedson, mas seguramente que o seu treinador terá um problema bem maior para resolver do que propriamente Paulo Sérgio sem o levezinho.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
O clássico: ataque vs. ataque? Ganhou a defesa...
Um clássico é sempre um clássico e o de ontem foi carregado de intensidade emotiva, com uma das equipas a claudicar emocionalmente – o Porto – e outra equipa extremamente assertiva e competente assumindo um estilo de jogo conservador e expectante. Havíamos apontado na análise anterior ao jogo que a posse de bola ia ser determinante para definir o vencedor do jogo. Enganamo-nos, redondamente. O Porto teve a bola, mas isso não foi pecado nenhum para Jesus, uma vez que os homens de Villas-Boas pouco ou nada souberam fazer com ela. Lastimável a forma como uma equipa com tanta posse de bola despachava-a em passes directos da defesa para os flancos de ataque, sem que depois sequer voltasse ao centro. Os lances ofensivos do Porto basearam-se em investidas individuais dos seus avançados que quase sempre redundaram em insucesso, batendo vezes sem conta na muralha defensiva do Benfica. E mesmo nos raros momentos em que conseguiram passar a oposição decidiram invariavelmente mal o que fazer com a bola nesse último espaço de terreno, incapazes de pensar o jogo de maneira diferente que não o cruzamento para o ausente ponta-de-lança. O Benfica teve a abordagem ao jogo que prevíamos, no entanto, o Porto foi uma sombra de si mesmo. Contra linhas tão recuadas e tão juntas os jogadores do Porto foram incapazes de trocar a bola entre si, pacientemente, usando a circulação da bola como isco para desposicionar os jogadores encarnados. Foi um péssimo espectáculo apresentado pelos dragões, contra um Benfica incapaz de se impor pelo seu jogo ofensivo e de controlo, optando por dar a iniciativa ao Porto e partir para o contra golpe onde, graças à capacidade de Coentrão em “queimar” linhas, disferiu os ataques com tremenda eficácia e frieza. Nesta capacidade de atacar bem e com poucos jogadores esteve a base do sucesso do Benfica, juntando-se o rigor e a concentração defensivas permitiram que este tipo de jogo na “corda bamba” fosse um sucesso. Não é este tipo de futebol que gostamos de ver vencer, nem o que o Porto apresentou, evidentemente, mas seguramente que o Benfica sai do Dragão com mais do que uma vitória, sai com uma equipa com espírito de grupo reforçado. Tal como o Inter de Mourinho apostou num tipo de jogo na “corda bamba” aquando da deslocação a Barcelona (perdendo por 1-0, mas apurando-se para a final da Liga dos Campeões com o resultado conjunto das duas mãos), Jesus fechou o Benfica atrás e assumiu o risco de jogar à defesa e saiu vencedor. Apesar de parecer contraditório, acreditamos que jogar à defesa, com linhas tão recuadas é muito mais arriscado do que jogar com a equipa mais subida e privilegiando a posse de bola, em que o controlo sobre o adversário pode ser muito mais facilmente imposto.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Dia de clássico
Para os adeptos o dia de clássico é sempre expectante, o jornal é lido com mais atenção, tudo na busca de informação que possibilite prever o imprevisível. Esta época Porto e Benfica já se encontraram duas vezes, e em ambas os dragões deram uma demonstração cabal de toda a sua qualidade vencendo sem contestação os dois jogos, tendo mesmo o último desafio redundado num estrondoso 5-0. A lógica diz-nos que o Porto com estes antecedentes tão recentes é mais do que favorito, aliando isto a toda a capacidade da equipa para explanar as ideias fantásticas do seu treinador no terreno de jogo. O Porto joga bem, joga o melhor futebol da Liga e só perdeu por uma vez em cerca de meio ano de competição. Por seu turno, o Benfica é uma equipa tacticamente muito bem organizada, tal como o Porto, apresenta ideias de jogo ofensivo estruturadas na criatividade do seu quarteto argentino de ataque (Aimar, Saviola, Gaitán e Salvio) e vem de uma série entusiasmante de 8 vitórias consecutivas num só mês. A balança não tem pesos assim tão desequilibrados na teoria, mas o factor casa pode ser decisivo nesta partida, uma vez que pode empurrar os dragões para momentos de ataque continuado que encostem atrás um Benfica que se poderá retrair face ao ambiente e ao peso dos 5 golos sofridos na última visita ao reduto do Dragão.
Janeiro deixou uma marca nos onzes iniciais de ambas as equipas, seja derivado a vendas (David Luiz), seja por lesões (Álvaro Pereira e o suplente Emídio Rafael), os técnicos não vão poder escalonar o onze mais forte que em potência poderiam apresentar. No entanto, as alternativas que a profundidade que ambos os plantéis apresentam asseguram a manutenção de níveis mínimos de qualidade, podendo claudicar fisicamente nos períodos finais do encontro. Será muita a competitividade e a chave para o sucesso neste jogo passará pela posse de bola. É inconcebível que algum dos técnicos monte uma estratégia de contra golpe para este jogo, tendo em conta que as dinâmicas de ambas as equipas privilegiam a posse da bola. O vencedor deste confronto será a equipa que melhor tratar a bola aquando do seu poder, e nesse aspecto a equipa que joga no ambiente hostil terá de ter grande capacidade mental para não deixar que isso afecte as tomadas de decisão dos seus jogadores. A aposta do Magnífico Overlapping aponta para uma vitória do Porto, quer pelo factor casa, quer pela presumível tentativa do Benfica em levar a decisão da eliminatória para a Luz o que, por certo, influenciará o seu jogo para uma toada mais defensiva e de expectativa sem a bola, o que será o pecado de Jesus.
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