Um clássico é sempre um clássico e o de ontem foi carregado de intensidade emotiva, com uma das equipas a claudicar emocionalmente – o Porto – e outra equipa extremamente assertiva e competente assumindo um estilo de jogo conservador e expectante. Havíamos apontado na análise anterior ao jogo que a posse de bola ia ser determinante para definir o vencedor do jogo. Enganamo-nos, redondamente. O Porto teve a bola, mas isso não foi pecado nenhum para Jesus, uma vez que os homens de Villas-Boas pouco ou nada souberam fazer com ela. Lastimável a forma como uma equipa com tanta posse de bola despachava-a em passes directos da defesa para os flancos de ataque, sem que depois sequer voltasse ao centro. Os lances ofensivos do Porto basearam-se em investidas individuais dos seus avançados que quase sempre redundaram em insucesso, batendo vezes sem conta na muralha defensiva do Benfica. E mesmo nos raros momentos em que conseguiram passar a oposição decidiram invariavelmente mal o que fazer com a bola nesse último espaço de terreno, incapazes de pensar o jogo de maneira diferente que não o cruzamento para o ausente ponta-de-lança. O Benfica teve a abordagem ao jogo que prevíamos, no entanto, o Porto foi uma sombra de si mesmo. Contra linhas tão recuadas e tão juntas os jogadores do Porto foram incapazes de trocar a bola entre si, pacientemente, usando a circulação da bola como isco para desposicionar os jogadores encarnados. Foi um péssimo espectáculo apresentado pelos dragões, contra um Benfica incapaz de se impor pelo seu jogo ofensivo e de controlo, optando por dar a iniciativa ao Porto e partir para o contra golpe onde, graças à capacidade de Coentrão em “queimar” linhas, disferiu os ataques com tremenda eficácia e frieza. Nesta capacidade de atacar bem e com poucos jogadores esteve a base do sucesso do Benfica, juntando-se o rigor e a concentração defensivas permitiram que este tipo de jogo na “corda bamba” fosse um sucesso. Não é este tipo de futebol que gostamos de ver vencer, nem o que o Porto apresentou, evidentemente, mas seguramente que o Benfica sai do Dragão com mais do que uma vitória, sai com uma equipa com espírito de grupo reforçado. Tal como o Inter de Mourinho apostou num tipo de jogo na “corda bamba” aquando da deslocação a Barcelona (perdendo por 1-0, mas apurando-se para a final da Liga dos Campeões com o resultado conjunto das duas mãos), Jesus fechou o Benfica atrás e assumiu o risco de jogar à defesa e saiu vencedor. Apesar de parecer contraditório, acreditamos que jogar à defesa, com linhas tão recuadas é muito mais arriscado do que jogar com a equipa mais subida e privilegiando a posse de bola, em que o controlo sobre o adversário pode ser muito mais facilmente imposto.

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