Chegou hoje a Lisboa um dos reforços para o Benfica 2011/12, o brasileiro Bruno César de 22 anos oriundo do Corinthians. O que é de esperar deste jogador? Em primeiro lugar não se pense que com Bruno César o Benfica adquirirá, pela sua juventude, mais velocidade na posição de “número 10”. Bruno César é lento a correr e driblar, no entanto é rápido na decisão, isto no campeonato brasileiro em que o ritmo é bem mais pausado. O seu principal desafio será adaptar-se a uma realidade que lhe exigirá mais velocidade a soltar a bola e, consequentemente, a prever a jogada que irá acontecer. Não é, por conseguinte, um jogador atlético, apesar de ser corpulento. É canhoto e tem muita técnica no controlo de bola e no passe, longo ou curto. Para a nossa realidade mais próxima, digamos que estamos perante um jogador parecido com Miguel Veloso apesar de jogar numa zona mais avançada do terreno. As parecenças residem na técnica de posse e de passe da bola, na mais-valia que constitui nos lances de bola parada, em que o Benfica ganha um jogador capaz de marcar cantos ou livres junto às laterais para a área com muito perigo. O pé direito é pouquíssimo utilizado e mesmo nos passes longos que pedem um pé direito, o jogador opta por batê-los de trivela, com grande qualidade técnica, diga-se. Em suma, é um jogador que não se prende à bola e é capaz de a endossar com qualidade para os colegas. A sua capacidade de se integrar no jogo europeu, bem mais rápido e frenético que o brasileiro, será a chave para o seu sucesso no Benfica e nesse aspecto Jesus terá um papel fulcral. Por outro lado, a capacidade que Bruno César demonstra ao privilegiar o passe vertical para o avançado, dando-lhe imediatamente apoio noutra posição desmarcando-se, denota que é um jogador inteligente e que não se limita a fazer passes a rasgar aguardando estático que alguém resolva o resto da jogada. Este dinamismo combinado com a qualidade de Saviola no jogo entre linhas e com os frenéticos Gaitán e Fábio Coentrão a romper na ala esquerda podem causar mossa nas equipas adversárias. Pela quantia que é avançada pela comunicação social (entre 7 e 8 milhões de euros) o Benfica parece estar a dar um passo certo para o futuro, visto que Aimar caminha para o crepúsculo da carreira e Martins teima em não evoluir o suficiente para dar garantias de qualidade na posição do astro argentino.
segunda-feira, 28 de março de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Pilares
Vivem-se momentos decisivos para o futebol leonino. Nos próximos dias ir-se-á escolher um novo caminho para o Sporting. Desta feita a pluralidade de ideias manifestou-se e os sócios terão oportunidade de optar por uma das diferentes soluções apresentadas. Foi, sem dúvida, um claro sinal de vitalidade de um clube que parecia moribundo e que encontra neste novo período uma possibilidade de recuperar e soltar-se do que o prende contra a parede. Se este novo fôlego e resiliência manifestada a nível directivo é de saudar, a nível desportivo, no que ao futebol diz respeito, é importante perceber o que é que resta e quais são os pilares nos quais se deve construir o futuro próximo do Sporting. As propostas eleitorais a nível técnico incidem numa aposta clara pela escola holandesa, caracterizada pelo futebol ofensivo e tecnicista, alicerçado numa estrutura que promove a formação de jogadores. É, sem sombra de dúvidas, uma filosofia que está no ADN do Sporting Clube Portugal desde sempre. Esta concomitância ideológica poderá trazer grandes benefícios para Sporting, quer a curto, quer a médio-longo prazo. Se a ideologia permitirá construir um futuro promissor e adequado à história do clube a longo prazo, a urgência do futuro próximo pede competência mais do que ideológica a um treinador. Exige-lhe grande competência na construção táctica da equipa, tão fustigada esta temporada. Esta descaracterização na arquitectura táctica que a era Paulo Sérgio trouxe fez crescer um enorme ponto de interrogação no valor dos actuais jogadores e na capacidade destes contribuírem para o futuro do amanhã.
Desta forma, debrucemo-nos no tema principal deste post: quais são os jogadores pilares do actual futebol do Sporting? Sobre que núcleo de jogadores se deve construir? A saída de Liedson constituiu o derrube de um desses eventuais pilares, uma vez que o seu estilo de jogo influenciava em grande medida a dinâmica ofensiva da equipa, ou seja, poucos apoios frontais para os médios, detrimento do passe vertical pelo centro do terreno e primazia pela verticalidade nos flancos, potenciando o oportunismo de Liedson e desorganização defensiva das outras equipas. Foi assim que Liedson coleccionou golos nos últimos anos e conquistou o coração dos adeptos do Sporting, sendo de longe o jogador mais influente do Sporting a nível ofensivo. O presente, no entanto, não contempla Liedson, e o actual ponta-de-lança titular do Sporting é Hélder Postiga. Vale a pena construir sobre Postiga? Claro que sim. A ineficácia do avançado português é desesperante e o número de lances que cria é incompatível com a quantidade de golos que tem. Postiga carece de mais concentração no momento de finalizar, porque leitura e vontade de marcar tem de sobra. No entanto, o jogo de Postiga abre espaço para o surgimento de um colega avançado que saiba ler o jogo com inteligência e aproveitar as oportunidades que Postiga oferece como segundo avançado. Não será necessário um “pinheiro” que se limite a encostar para o fundo da rede, mas um bom finalizador que aproveite lendo o jogo que o avançado português cria, aproveitando o espaço e ajudando Postiga no apoio vertical aos médios, sem destruir esse futebol envolvente que Liedson nunca soube interpretar.
No meio-campo um dos pilares é Jaime Valdés, de longe o melhor médio do Sporting. A sua capacidade táctica e técnica, aliada a larga experiência competitiva oferecem ao Sporting garantias para o presente e para as próximas épocas, uma vez que é capaz de se tornar no líder de balneário que tanto carece a equipa leonina. Saber aproveitar Valdés para ser mais do que um mero jogador a prazo e torná-lo numa referência para as gerações vindouras poderá ser o segredo para promover o fim da mediocridade a nível de jovens médios ofensivos do futebol português. Por seu turno, André Santos e Pedro Mendes são duas peças que, por razões diferentes, muito podem fazer pelo Sporting. Pedro Mendes é um jogador cujas capacidades atléticas começam a fazer a diferença pela negativa no seu futebol, que nunca foi físico. As lesões que vem acumulando começam a prejudicar gravemente a possibilidade de se estabelecer como titular no meio-campo e referência no primeiro momento de construção de jogo. Aqui surge a oportunidade para André Santos, um jogador em franco crescimento. Não sendo prodigioso, o jovem leão pode oferecer no curto prazo uma opção credível ao seu treinador para o centro do terreno uma vez que é um jogador muito completo e combativo. Com o tempo e com dedicação poderá tornar-se um grande médio-centro da Liga portuguesa.
Na defesa Carriço é o principal pilar e ainda nem perto do seu potencial está a jogar. Aliás, a permanência de Carriço numa equipa tão moribunda tem contribuído para que o seu desenvolvimento não tenha sido ainda mais potenciado. Fazia falta um grande central ao seu lado, um Polga de há uns anos atrás, forte psicologicamente e no campo para dar espaço para a juventude de Carriço florir, seja em grandes jogos, seja em erros de critério próprios do desenvolvimento de um jovem jogador. Este são os pilares mais fortes do Sporting actual, mas existem outros jogadores que na dinâmica adequada podem render muito ao reino do leão: João Pereira, Vukcevic, Salomão, Saleiro, Zapater, Evaldo ou Nuno André Coelho. Cabe ao próximo treinador estudar bem as oportunidades e as forças do actual plantel antes sequer de se pensar em destruir e começar tudo do zero. O Sporting tem valores individuais muito, mas muito acima do zero.
quarta-feira, 16 de março de 2011
As escolhas de André
Pegando num tema levantado este fim-de-semana relacionado com a utilização de uma segunda linha de jogadores por parte do Benfica, vamos abordar o tema mas na perspectiva do Porto. André Villas-Boas tem utilizado a rotação de plantel de forma mais frequente e assertiva do que Jorge Jesus, tendo mesmo revelado alguns jogadores que jaziam na penumbra do futebol português. O primeiro caso que abordaremos é o de James Rodríguez. Contratado no Verão de 2010, este avançado/extremo colombiano manteve-se uma incógnita durante meio campeonato, sendo que se levantavam algumas questões acerca da sua contratação, tal a dicotomia entre o seu preço e a inexistente utilização em competição. No entanto, o jovem jogador passou por um período de incubação na primeira metade da temporada para depois surgir fulgurante numa altura em que o Porto precisava de alternativas no ataque, nomeadamente face às lesões consecutivas de Varela e quebra de rendimento subjacente. Contrariamente ao preconizado pela imprensa, James não é um jogador do tipo de Di Maria, que faz do um para um a sua principal arma. James é um jogador muito mais orientado para o colectivo e com uma leitura do jogo bem mais interessante do que Di Maria (um driblador incrível). Ainda teenager, o colombiano trouxe uma nova dimensão aos extremos do ataque do Porto, oferecendo um jogo mais envolvente e menos vertical do que Hulk e Varela. Ficou-nos na retina a exibição deslumbrante frente ao Nacional para o campeonato no Dragão como um dos momentos altos de azul. Por outro lado, no jogo contra o bem organizado Benfica claudicou e mostrou dificuldades em resolver problemas mais complexos do que os apresentados pelas equipas mais pequenas da Liga. Sem dúvida que o Porto contratou um jogador muito promissor e com um estilo de jogo que lhe augura uma margem de progressão enorme. É e será durante muito tempo uma cada vez maior mais-valia para André Villas-Boas.
A segunda opção alternativa ao onze inicial do Porto que pretendemos salientar é também proveniente da Colombia – Guarín. O poderoso médio centro mostrou nos primeiros tempos em Portugal uma inconsistência e uma imaturidade táctica pouco consentâneas com as exigências de um clube grande, e face à concorrência interna do plantel do Porto, poucas oportunidades veria até esta temporada. Com Villas-Boas o jogador colombiano cresceu de uma forma incrível nestes aspectos que pecava no passado e para além disso, oferece uma polivalência importantíssima para os planos do seu treinador, podendo assumir com facilidade qualquer uma das três posições centrais do meio campo do Porto. Começou por aparecer em grande plano a substituir Fernando como pivot-defensivo, fazendo mesmo questionar a titularidade, até então indiscutível, do Polvo. Mais recentemente começou a aparecer em zonas mais ofensivas assumindo a posição de Bellushi ou de Moutinho, abrindo espaço para que o seu poderio físico e a sua fortíssima meia distância comecem a causar mossa nas defensivas contrárias. Não é um jogador com o requinte e a visão de jogo de Bellushi, nem com a rotação e rigor de Moutinho, no entanto, é uma alternativa de grande qualidade que o treinador do Porto tem à sua disposição, podendo com Guarín colmatar a inconstância de rendimento de Bellushi ou então gerir o desgaste de Moutinho.
Neste núcleo central do Porto surge outra das opções credíveis de André Villas-Boas, o madeirense Rúben Micael. Ao contrário de Guarín, o português conhece uma trajectória descendente relativamente ao seu impacto na equipa, altamente relevante aquando da sua chegada ao Porto na segunda metade da época passada. O verticalismo do futebol de Rúben Micael contrasta demasiado com o tipo de futebol que Villas-Boas está introduzir no Porto, mais baseado na posse de bola e no critério aquando da sua verticalização para zonas de alta densidade de defensores adversários. Não deixa, no entanto, de ser uma opção que Villas-Boas utiliza, nomeadamente quando coloca em campo quatro jogadores de meio campo com características que os afastam das faixas laterais, desenhando um quadrado no meio campo com duas linhas de dois jogadores. O seu futuro no Dragão não está livre de risco, uma vez que as suas características não se encaixam tão bem neste Porto como no de Jesualdo Ferreira.
Outro jogador em destaque na rotação portista é Otamendi, ou será Maicon? De facto, Villas-Boas conseguiu instituir uma rotação extremamente interessante no centro da defesa do Porto, em certa parte proporcionada pela chegada tardia do argentino ao Dragão. Com a dupla Rolando-Maicon o Porto teve um início de temporada extremamente satisfatório, mas a inexperiência de Maicon e alguns erros associados proporcionaram a entrada mais frequente de Otamendi que resultaram em golos, muitos deles decisivos, principalmente na deslocação a Braga, onde o Benfica caiu. No entanto, nem tudo são rosas, e este eixo defensivo do Porto continua a consistir a principal fraqueza deste Porto de Villas-Boas. Há espaço para melhores jogadores para esta posição e nenhum dos actuais é intocável. Uma boa movimentação no mercado de Verão na aquisição de um defesa-central poderá reforçar ainda mais este plantel portista. Nas laterais defensivas existem também boas alternativas aos titulares. Se na direita existe a típica relação lateral-ofensivo (Fucile) por defesa-lateral (Sapunaru), com mais de uma época de experiência. No lado esquerdo temos dois laterais menos defensivos, mas distintos na forma de abordar o jogo. Álvaro Pereira é mais vertical e um autêntico vaivém, baseando o seu futebol na capacidade atlética superior. Emídio Rafael é um jogador muito culto tacticamente e vocacionado para jogar para dentro, mais na lógica de posse defendida pelo seu treinador (a sua contratação à Académica tem claramente o dedo de Villas-Boas). A lesão grave de Emídio Rafael surgiu na fase em que começava a ganhar ascendente no plantel portista e a conquistar os adeptos, no entanto, na próxima época o Porto dificilmente terá necessidade de ir ao mercado buscar um lateral, seja para que ala for.
As restantes opções de Villas-Boas começam a cair um pouco para fora do baralho e para fora do Dragão. Souza e Walter que pareciam ter conquistado algum espaço começaram a desaparecer quer por motivos de falta de rendimento (Souza), quer por falta de profissionalismo (Souza e Walter) o que lhes escancara a porta da saída no Verão. Cristian Rodríguez é extremamente inconstante, ora aparecendo como opção credível, até para o onze inicial, ora jogando ao pior nível, sendo uma espécie de caso Vukcevic à moda do Porto. O seu salário brutal empurra-o cada vez mais para a saída e a chegada da promessa Iturbe é mais do que um convite ao adeus. Sereno e Mariano são cartas fora do baralho por motivos diferentes, o primeiro revelou o “síndrome Luís Filipe” de inadaptação a grande, estando irreconhecível do jogador que vimos em Guimarães. Mariano, por seu turno, tem uma grande atitude como profissional que lhe mereceu a braçadeira de capitão no passado, mas as poucas oportunidades dadas por Villas-Boas revelam que não é intensão do técnico português contar com ele, pelo que o seu adeus é uma inevitabilidade e não trará impacto ao rendimento da equipa. Mantendo Falcao, Moutinho, Hulk e Fernando o Porto terá montado o mesmo esqueleto que lhe trouxe grande sucesso esta temporada, e com estas opções alternativas, a concorrência terá de se mexer muito bem para tirar o Porto da posição de favorito para campeão 2011/12.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Em queda livre
Terminado o sonho de revalidar o título nacional, a equipa do Benfica começa a demonstrar preocupantes sinais de quebra de rendimento. Os últimos jogos, incluindo a vitória na Luz frente ao Paris Saint-Germain, não deixam antever um futuro próximo risonho para os encarnados. Para os que pensavam que com o título irremediavelmente perdido para o Porto os homens da Luz estariam mais preparados para apontar a outros objectivos, a palidez da performance recente da equipa de Jesus promete uma dificílima deslocação a Paris e um enorme ponto de interrogação na capacidade de resposta da equipa para enfrentar o Porto em dois jogos na Luz. Depois de ter atingido o pico de forma esta temporada, avizinha-se uma queda acentuada do Benfica, que poderá mesmo ter como único objectivo credível a Taça da Liga frente ao sedutor Paços de Ferreira. Não seria a primeira vez que o gigante encarnado se veria surpreender numa eliminatória aparentemente ganha para a Taça de Portugal, face a um Porto de novo em crescendo. Jorge Jesus bem tenta puxar pela moral dos jogadores, mas face ao fraquíssimo Portimonense e a jogar em casa, teve de ser Nuno Gomes na confusão a fazer o empate. Tudo o resto demonstram preocupantes erros de casting na construção do plantel. Atacar a Liga Europa exigiria um plantel bem mais rico do que o do Benfica, incapaz de colmatar a desinspiração de Gaitán ou Salvio, uma vez que Saviola mantém-se afastado do seu nível de topo há muito tempo. No meio da tempestade sobra Jara que à força e com pouca cabeça vai tentando puxar o Benfica para cima. Dizem que é cansaço acumulado, mas parece mais o Benfica do início de época a regressar do que outra coisa qualquer. O alarme toca na Luz, veremos se alguém o ouve ou se continuam a assobiar para o Porto com guerrinhas que nada de bom trazem para o futebol português.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Encomendem as faixas, temos campeão
A oito jornadas do final do campeonato, ainda sem confirmação matemática, encontramos o vencedor anunciado da Liga Portuguesa 2010/11 – o F.C. Porto. Sem deslumbrar, os portistas dominaram com alguma facilidade um inofensivo Vitória de Guimarães, vencendo por 2-0 no Estádio no Dragão. Destaque para a qualidade individual de Falcao que surgiu no momento certo, eficaz como sempre, a concluir uma bela jogada de ataque ao fugir nas costas da defensiva vimaranense para desfeitear Nilson com um remate cruzado para o fundo da rede. Desbloqueado o marcador, o Porto tornou-se senhor do jogo e controlou a partida até ao final. Passada a pressão para o Benfica, Jorge Jesus assumiu o risco e decidiu dar um merecido e necessário descanso ao tridente ofensivo do meio-campo (Aimar-Gaitán-Sálvio) apostando em Jara pela esquerda, Martins pelo centro e Menezes pela direita. Opções no mínimo discutíveis, que nos levam a pensar na utilidade da contratação de Fernandéz, o único médio esquerdo de raiz disponível recaindo a opção por adaptar Jara à esquerda e adaptar Menezes à direita. No entanto, o jogo começou bem para o Benfica, com Saviola a inaugurar o marcador, estabelecendo-se como o melhor marcador da equipa na Liga. Estava feito o mais difícil. Seria de antever que o Benfica passaria a assumir uma atitude mais de expectativa, a mesma que brilhantemente aplicou ao Porto na vitória para a Taça de Portugal, na vitória em Alvalade e na vitória em Estugarda. Para isso, talvez as opções Jara e Menezes não fossem decisivas no desfecho da partida, uma vez que Jara oferecia a capacidade de explosão para a transição ofensiva e Menezes a qualidade de passe para esse lançamento na profundidade e alguns centímetros para a disputa aérea. Mas, do outro lado da barricada encontrou uma equipa do Braga transfigurada daquela que nos tem sido mostrada ao longo da temporada. Quiçá motivada pelo valor do adversário, os comandados de Domingos Paciência partiram para cima do Benfica em busca da reviravolta. O primeiro golo nasce de um lance polémico entre Javi Garcia e Alan. Quanto a este lance temos uma leitura clara: há agressão? Não. Javi tenta agredir Alan? Sim. Alan, quando entra sobre Javi faz falta dura sobre este? Sim. Alan simula que é agredido? Sim. A pressão do banco do Braga é irrelevante uma vez que estamos no país em que toda e qualquer decisão do árbitro que seja assinalada contra uma equipa é passível de protestos veementes. Estes protestos ocorrem porque existem provas factuais de que resultam, em certa medida, em benefícios posteriores. Ou seja, o árbitro e seus assistentes têm uma série de decisões difíceis de assinalar ao longo de um jogo, se apenas apitassem quando tivessem 100% de certeza em determinado lance, todos os jogos haveriam faltas graves por assinalar. Muitas vezes a experiência do árbitro é decisiva para aferir se um jogador “mergulhou” para aproveitar o contexto ambiental do jogo. Se um árbitro estiver a ser altamente contestado durante um jogo, ou se errou escandalosamente no jogo anterior, a leitura de um lance difícil que possa surgir poderá ser enviesada e manipulada. Essa carga psicológica sobre os árbitros não surge somente aquando do jogo, mas ao longo da semana e manifesta-se no discurso de diversos agentes, sejam técnicos, dirigentes ou mesmo a imprensa (que também é alvo de manipulações, escandalosamente patente na “cor” de cada um dos três jornais desportivos).
Voltando ao lance de Javi com Alan. Javi Garcia é um jogador possante, combativo e físico na abordagem a determinados lances. Não é um jogador violento, mas parte do seu jogo baseia-se no forte poder de choque, e isso é uma mais-valia em diversas situações. No jogo anterior contra o Sporting, Javi Garcia agrediu impunemente com um pontapé na cara Hélder Postiga, quando este se encontrava deitado na relva a pedir uma falta inexistente. Não foi um pontapé forte para magoar seriamente Postiga, mas foi maldoso e na passada, influenciando o comportamento mental do avançado do Sporting nos lances seguintes. Este lance estava certamente na retina do juiz do jogo, que ao estudar os jogadores de ambas as equipas sabia que deveria estar a atento a este tipo de lances. Ao ser alvo de uma entrada ríspida de Alan, Javi reage instintivamente no sentido de ripostar. No entanto, o médio espanhol controla esse impulso deixando apenas no ar a intensão. Se nada tivesse sido assinalado, nem Alan se tivesse atirado para a relva, o jogo seguiria e Javi teria marcado a sua presença física sobre Alan, ou seja, em futuros lances Alan teria a certeza que Javi iria entrar duro e isso poderia ser favorável ao espanhol uma vez que o jogador do Braga teria mais cautelas de forma a não se lesionar numa bola dividida. Mas Alan é um jogador experiente e sabendo do background que subjacente à carga emocional do jogo e às características de Javi Garcia, decidiu atirar-se para o chão. E foi bem sucedido nas suas intenções, uma vez que o árbitro expulsou o espanhol. Se o lance fosse disputado de forma igual entre Alan e, por exemplo, Aimar, o mais provável era que Alan não tentasse “cavar” a agressão, uma vez que o argentino não é um jogador com características agressivas no seu jogo, muito pelo contrário, Aimar é um artista de botas nos pés e, tirando alguns “mergulhos” para tentar conquistar penalties, nada no seu jogo manifesta falta de desportivismo.
Apesar de tudo, o Benfica já tinha mostrado no Dragão e em Alvalade que sabia jogar e ganhar com apenas 10 jogadores e, naquele momento do jogo, encontrava-se a vencer por 1-0. No entanto, Roberto voltou a claudicar e destruir a estratégia de Jesus, ao sair-se pessimamente ao cruzamento do Hugo Viana, que ao sair demasiado longo, caiu em direcção da baliza empatando o jogo. Não raras vezes nesta época de estreia em Portugal o guardião espanhol cometeu erros graves. É evidente que também faz boas e decisivas intervenções, mas neste aspecto está a par com a maioria dos guarda-redes da Liga. O facto de jogar de águia ao peito faz destacar ainda mais os erros de Roberto, fazendo lembrar, em certa parte, Moretto, capaz de defender um penalty cobrado por Ronaldinho em pleno Camp Nou e de sofrer “frangos” desesperantes. O preço que Roberto trouxe na etiqueta aquando da sua aquisição faz levantar sérias suspeitas da “seriedade” do negócio, o que faz crescer ainda mais as interrogações acerca do seu real valor.
Problemas conjunturais à parte, fica patente que apesar da anunciada conquista do título nacional pelo F.C. Porto, está encontrado um rival à altura de travar a hegemonia portista dos últimos 20 anos. Com Jesus o Benfica joga futebol de grande qualidade e consegue compatibilizá-lo com vitórias. Na próxima temporada o Porto terá de ser tão perfeito como está a ser nesta (caminhando incrivelmente imaculado até agora) e isso está longe de ser fácil de alcançar. Que o diga Jesus que após chegar ao paraíso com a conquista do título em ano de estreia viu escorregar-lhe por entre os dedos a possibilidade de o renovar bem no início da época quando o escudo de campeão pesou demasiado nas camisolas dos seus jogadores.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Reminiscências do derby da Luz
São já 18 os jogos consecutivos em que o Benfica sai vencedor. Esta sequência fantástica manteve-se, desta vez à custa do velho rival. Transfigurada, a equipa do Sporting apresentou-se na Luz com vontade de discutir a eliminatória e um lugar na final, tendo mesmo dominado os primeiros minutos do jogo culminando esse ascendente com um golo de Postiga, com mais um frango de Roberto. O guarda-redes do Benfica é um protagonista maior em diversos jogos, quer pelos golos que consente, quer pelas defesas decisivas que dão vitórias ao clube encarnado e que ontem voltaram a surgir a impedir um golo ao cair do pano de Matias Fernandez. Mas se o golo tardio não surgiu na baliza encarnada por mérito de Roberto, outro espanhol do Benfica surgiu em evidência ao sentenciar a partida para lá do minuto 90. Javi Garcia foi mesmo dos melhores em campo, mesmo sendo alvo de pressão extra por parte dos atacantes leoninos durante todo o jogo que lhe complicou bastante a condução de bola e passe para os médios mais ofensivos. Foi uma abordagem táctica interessante por parte dos comandados de Couceiro, que mostraram mais organização e mais ideias de jogo colectivo do que na recém-extinta era Paulo Sérgio. No entanto, os extremos avançados do Sporting estiveram em noite de desinspiração, com Yannick e Vukcevic a darem uma pálida imagem da sua valia, não aproveitando uma das brechas que a equipa do Benfica costuma consentir na sua abordagem ao jogo, o avanço dos defesas laterais. Assim, a visivelmente cansada equipa de Jesus, conseguiu suster as investidas leoninas e partiu para ataque continuado nos momentos finais do jogo conseguindo derrubar a resistência do Sporting nos descontos do segundo tempo. Numa noite pálida dos jogadores mais criativos do Benfica, sobrou a vontade da equipa em vencer face a um Sporting demasiado abatido para conseguir ultrapassar um obstáculo tão difícil. Cardozo também demonstrou os seus argumentos ao voltar a marcar num derby lisboeta, começando a construir um currículo significativo de golos contra os leões. O ponta-de-lança paraguaio revelou muita qualidade no posicionamento entre os centrais adversários arrastando marcações e abrindo espaços para os colegas, constituindo sempre uma referência no jogo aéreo, quer proveniente de cruzamentos, quer na disputa pela bola longa enviada pela defesa encarnada.
Ao Sporting resta-lhe a consolação de ter evidenciado melhorias e que existe ainda algo sobre o qual se pode construir o futuro. Couceiro transmite mesmo essa ideia ao mundo leonino, apresentando uma solução sensata para a próxima temporada, relevando a pertinência de assegurar o 3º lugar na classificação da Liga para evitar um playoff precoce para a Liga Europa o que dará mais tempo para o próximo técnico cimentar as suas ideias. Os valores da equipa do Sporting continuam lá e existe uma base de alguns jogadores com os quais se podem aspirar outros voos, como os casos de André Santos, Daniel Carriço, João Pereira e Valdés. O futuro do Sporting não passa por mais uma razia no elenco do plantel, mas sim na capacidade de identificar as forças e fraquezas do actual plantel, de forma a reforçar somente as zonas mais críticas, abrindo espaço também para que alguns jogadores jovens possam aparecer na próxima época, como os casos de Saleiro, Pereirinha, Adrien, Salomão e Zapater.
Já no domingo espera ao Benfica uma deslocação complicada a Braga que será um dos jogos chave da época encarnada. O cansaço acumulado nas pernas dos jogadores mais influentes bem patente nas duas últimas vitórias na Luz já nos descontos, a lesão de Aimar, o pior momento de Saviola e a série louca de jogos em que os encarnados se encontram, poderá ditar o adeus ao título bem antes do Porto dar a eventual escorregadela que poderia colocar um carácter mais decisivo ao clássico agendado para a jornada 25 na Luz. Veremos o que sucederá aos comandados de Jesus na missão dificílima que terão pela frente na cidade dos arcebispos.
terça-feira, 1 de março de 2011
Poder central
Embora seja um confesso apreciador do futebol com a bola bem rente ao relvado, o certo é que o esférico quando pontapeado com bastante força noutro sentido que não o horizontal tende a subir, sendo posteriormente afectado pela força gravítica que o faz retornar à relva. Nesse momento descendente existe um senhor na Liga Portuguesa que se destaca dos demais, uma vez que é uma força dominadora nesta luta nas alturas, quer no momento defensivo, quer no momento ofensivo. Chegou à Luz ainda muito verde e os defeitos vinham escancarados à vista de qualquer um, tendo até dificuldades em posicionar-se correctamente para abordar os lances aéreos. Recordo-me mesmo de Trapattoni a realizar trabalho específico com o gigante trapalhão. Mas os anos passaram-se e Luisão foi acumulando muitos jogos e maturidade que hoje, sob a batuta de Jesus, assume a sua forma mais dominante. A evidente lentidão e pouca técnica do seu jogo levam a que seja considerado um central demasiadamente incompleto, ou seja, que as suas virtudes não chegam para colmatar as suas lacunas. No entanto, a linha defensiva do Benfica é neste momento uma máquina tão bem oleada que Luisão parece ser o melhor central da Liga, mesmo que não deixe de ser limitado. Saber aquilo em que se é bom e aquilo em que se é mau é um sinal claro de maturidade e saber gerir essa relação plasmando-a no jogo poderá ser uma chave para o sucesso. Vimos nestas últimas semanas a defesa do Benfica a jogar bem próxima da sua área (contra o Porto e Sporting) e bem longe da mesma (contra o Marítimo e o Estugarda na Luz), sendo que Luisão, exceptuando no golo sofrido na Luz frente aos alemães (mais por culpa da ausência de pressão no meio campo sobre Kuzmanovic que assiste Harnik), nunca expôs as suas debilidades e mostrou todo o seu poder, quer a dominar as tentativas de jogo directo dos adversários, quer a aparecer em oportunidades de golo nas bolas paradas ofensivas. Para além disso, o gigante brasileiro é um dos líderes do grupo encarnado, sendo um belo exemplo para os seus companheiros de que saber dominar as debilidades e encontrar estratégias que as contornem, pode levar ao sucesso. Um dos motivos pelos quais a saída de David Luiz ainda não se fez sentir de forma evidente, reside na confiança que Luisão transmite ao seu companheiro de sector, seja Sidnei ou Jardel, uma vez que o girafa mostra a cada jogo que passa que com audácia e determinação, mesmo o mais lento e tosco dos centrais trama o mais virtuoso avançado que se descuide e caia na armadilha do fora-de-jogo.
A guerra dos 8 pontos
Mais um fim-de-semana rico em futebol de qualidade e em emoções fortes na luta pelo título da Liga Portuguesa. Num dos raros jogos em que chegou ao intervalo ainda sem vantagem no marcador, o Porto teve de puxar dos argumentos que nos habituou na primeira metade da temporada para levar de vencida a brava equipa da Olhanense que nunca virou a cara à luta e tentou retirar a hegemonia aos comandados de André Villas-Boas. No entanto, o Porto foi fantástico no segundo tempo e conseguiu ultrapassar a barreira algarvia, primeiro com um tiro de inspiração de Bellushi e depois com a classe de Falcão a driblar a marcação directa e a disferir um remate colocadíssimo que sentenciou o jogo. No próximo jogo, em casa, o Porto vai receber o Vitória de Guimarães que conseguiu a proeza de roubar 2 pontos na primeira volta aos líderes do campeonato. Sem Hulk, castigado e de novo trapalhão no seu jogo, o Porto irá tentar manter pé firme até porque o Benfica terá um teste dificílimo em Braga. No entanto, este Benfica mostra ser capaz de tudo para revalidar o título. Mesmo quando tudo parecia perdido Fábio Coentrão atira um remate fortíssimo com o seu pé menos forte que bateu o inspirado Marcelo mantendo os 8 pontos de distância para o líder. Os jovens argentinos Gaitán e Sálvio já fizeram esquecer Di Maria e Ramires, assumindo-se como jogadores de primeira água na Liga Portuguesa. Em Braga o Benfica terá de dobrar uma tormenta bem complicada frente a uma equipa que, embora não esteja a lutar pelas mesmas ambições da temporada anterior, possui muitos valores acima da média portuguesa e quererá, sem dúvida, ser o muro no qual o sonho benfiquista fique aprisionado. Pelo meio, os encarnados ainda terão um grande jogo já amanhã em casa frente ao Sporting para a Taça da Liga. Mais um derby lisboeta num curto espaço de tempo que poderá ser o grito de revolta do Sporting, já com Valdes, ou mais uma confirmação de que nesta temporada os leões hibernaram por tempo indefinido.
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