quarta-feira, 16 de março de 2011

As escolhas de André

Pegando num tema levantado este fim-de-semana relacionado com a utilização de uma segunda linha de jogadores por parte do Benfica, vamos abordar o tema mas na perspectiva do Porto. André Villas-Boas tem utilizado a rotação de plantel de forma mais frequente e assertiva do que Jorge Jesus, tendo mesmo revelado alguns jogadores que jaziam na penumbra do futebol português. O primeiro caso que abordaremos é o de James Rodríguez. Contratado no Verão de 2010, este avançado/extremo colombiano manteve-se uma incógnita durante meio campeonato, sendo que se levantavam algumas questões acerca da sua contratação, tal a dicotomia entre o seu preço e a inexistente utilização em competição. No entanto, o jovem jogador passou por um período de incubação na primeira metade da temporada para depois surgir fulgurante numa altura em que o Porto precisava de alternativas no ataque, nomeadamente face às lesões consecutivas de Varela e quebra de rendimento subjacente. Contrariamente ao preconizado pela imprensa, James não é um jogador do tipo de Di Maria, que faz do um para um a sua principal arma. James é um jogador muito mais orientado para o colectivo e com uma leitura do jogo bem mais interessante do que Di Maria (um driblador incrível). Ainda teenager, o colombiano trouxe uma nova dimensão aos extremos do ataque do Porto, oferecendo um jogo mais envolvente e menos vertical do que Hulk e Varela. Ficou-nos na retina a exibição deslumbrante frente ao Nacional para o campeonato no Dragão como um dos momentos altos de azul. Por outro lado, no jogo contra o bem organizado Benfica claudicou e mostrou dificuldades em resolver problemas mais complexos do que os apresentados pelas equipas mais pequenas da Liga. Sem dúvida que o Porto contratou um jogador muito promissor e com um estilo de jogo que lhe augura uma margem de progressão enorme. É e será durante muito tempo uma cada vez maior mais-valia para André Villas-Boas.

A segunda opção alternativa ao onze inicial do Porto que pretendemos salientar é também proveniente da Colombia – Guarín. O poderoso médio centro mostrou nos primeiros tempos em Portugal uma inconsistência e uma imaturidade táctica pouco consentâneas com as exigências de um clube grande, e face à concorrência interna do plantel do Porto, poucas oportunidades veria até esta temporada. Com Villas-Boas o jogador colombiano cresceu de uma forma incrível nestes aspectos que pecava no passado e para além disso, oferece uma polivalência importantíssima para os planos do seu treinador, podendo assumir com facilidade qualquer uma das três posições centrais do meio campo do Porto. Começou por aparecer em grande plano a substituir Fernando como pivot-defensivo, fazendo mesmo questionar a titularidade, até então indiscutível, do Polvo. Mais recentemente começou a aparecer em zonas mais ofensivas assumindo a posição de Bellushi ou de Moutinho, abrindo espaço para que o seu poderio físico e a sua fortíssima meia distância comecem a causar mossa nas defensivas contrárias. Não é um jogador com o requinte e a visão de jogo de Bellushi, nem com a rotação e rigor de Moutinho, no entanto, é uma alternativa de grande qualidade que o treinador do Porto tem à sua disposição, podendo com Guarín colmatar a inconstância de rendimento de Bellushi ou então gerir o desgaste de Moutinho.

Neste núcleo central do Porto surge outra das opções credíveis de André Villas-Boas, o madeirense Rúben Micael. Ao contrário de Guarín, o português conhece uma trajectória descendente relativamente ao seu impacto na equipa, altamente relevante aquando da sua chegada ao Porto na segunda metade da época passada. O verticalismo do futebol de Rúben Micael contrasta demasiado com o tipo de futebol que Villas-Boas está introduzir no Porto, mais baseado na posse de bola e no critério aquando da sua verticalização para zonas de alta densidade de defensores adversários. Não deixa, no entanto, de ser uma opção que Villas-Boas utiliza, nomeadamente quando coloca em campo quatro jogadores de meio campo com características que os afastam das faixas laterais, desenhando um quadrado no meio campo com duas linhas de dois jogadores. O seu futuro no Dragão não está livre de risco, uma vez que as suas características não se encaixam tão bem neste Porto como no de Jesualdo Ferreira.

Outro jogador em destaque na rotação portista é Otamendi, ou será Maicon? De facto, Villas-Boas conseguiu instituir uma rotação extremamente interessante no centro da defesa do Porto, em certa parte proporcionada pela chegada tardia do argentino ao Dragão. Com a dupla Rolando-Maicon o Porto teve um início de temporada extremamente satisfatório, mas a inexperiência de Maicon e alguns erros associados proporcionaram a entrada mais frequente de Otamendi que resultaram em golos, muitos deles decisivos, principalmente na deslocação a Braga, onde o Benfica caiu. No entanto, nem tudo são rosas, e este eixo defensivo do Porto continua a consistir a principal fraqueza deste Porto de Villas-Boas. Há espaço para melhores jogadores para esta posição e nenhum dos actuais é intocável. Uma boa movimentação no mercado de Verão na aquisição de um defesa-central poderá reforçar ainda mais este plantel portista. Nas laterais defensivas existem também boas alternativas aos titulares. Se na direita existe a típica relação lateral-ofensivo (Fucile) por defesa-lateral (Sapunaru), com mais de uma época de experiência. No lado esquerdo temos dois laterais menos defensivos, mas distintos na forma de abordar o jogo. Álvaro Pereira é mais vertical e um autêntico vaivém, baseando o seu futebol na capacidade atlética superior. Emídio Rafael é um jogador muito culto tacticamente e vocacionado para jogar para dentro, mais na lógica de posse defendida pelo seu treinador (a sua contratação à Académica tem claramente o dedo de Villas-Boas). A lesão grave de Emídio Rafael surgiu na fase em que começava a ganhar ascendente no plantel portista e a conquistar os adeptos, no entanto, na próxima época o Porto dificilmente terá necessidade de ir ao mercado buscar um lateral, seja para que ala for.

As restantes opções de Villas-Boas começam a cair um pouco para fora do baralho e para fora do Dragão. Souza e Walter que pareciam ter conquistado algum espaço começaram a desaparecer quer por motivos de falta de rendimento (Souza), quer por falta de profissionalismo (Souza e Walter) o que lhes escancara a porta da saída no Verão. Cristian Rodríguez é extremamente inconstante, ora aparecendo como opção credível, até para o onze inicial, ora jogando ao pior nível, sendo uma espécie de caso Vukcevic à moda do Porto. O seu salário brutal empurra-o cada vez mais para a saída e a chegada da promessa Iturbe é mais do que um convite ao adeus. Sereno e Mariano são cartas fora do baralho por motivos diferentes, o primeiro revelou o “síndrome Luís Filipe” de inadaptação a grande, estando irreconhecível do jogador que vimos em Guimarães. Mariano, por seu turno, tem uma grande atitude como profissional que lhe mereceu a braçadeira de capitão no passado, mas as poucas oportunidades dadas por Villas-Boas revelam que não é intensão do técnico português contar com ele, pelo que o seu adeus é uma inevitabilidade e não trará impacto ao rendimento da equipa. Mantendo Falcao, Moutinho, Hulk e Fernando o Porto terá montado o mesmo esqueleto que lhe trouxe grande sucesso esta temporada, e com estas opções alternativas, a concorrência terá de se mexer muito bem para tirar o Porto da posição de favorito para campeão 2011/12.

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