A oito jornadas do final do campeonato, ainda sem confirmação matemática, encontramos o vencedor anunciado da Liga Portuguesa 2010/11 – o F.C. Porto. Sem deslumbrar, os portistas dominaram com alguma facilidade um inofensivo Vitória de Guimarães, vencendo por 2-0 no Estádio no Dragão. Destaque para a qualidade individual de Falcao que surgiu no momento certo, eficaz como sempre, a concluir uma bela jogada de ataque ao fugir nas costas da defensiva vimaranense para desfeitear Nilson com um remate cruzado para o fundo da rede. Desbloqueado o marcador, o Porto tornou-se senhor do jogo e controlou a partida até ao final. Passada a pressão para o Benfica, Jorge Jesus assumiu o risco e decidiu dar um merecido e necessário descanso ao tridente ofensivo do meio-campo (Aimar-Gaitán-Sálvio) apostando em Jara pela esquerda, Martins pelo centro e Menezes pela direita. Opções no mínimo discutíveis, que nos levam a pensar na utilidade da contratação de Fernandéz, o único médio esquerdo de raiz disponível recaindo a opção por adaptar Jara à esquerda e adaptar Menezes à direita. No entanto, o jogo começou bem para o Benfica, com Saviola a inaugurar o marcador, estabelecendo-se como o melhor marcador da equipa na Liga. Estava feito o mais difícil. Seria de antever que o Benfica passaria a assumir uma atitude mais de expectativa, a mesma que brilhantemente aplicou ao Porto na vitória para a Taça de Portugal, na vitória em Alvalade e na vitória em Estugarda. Para isso, talvez as opções Jara e Menezes não fossem decisivas no desfecho da partida, uma vez que Jara oferecia a capacidade de explosão para a transição ofensiva e Menezes a qualidade de passe para esse lançamento na profundidade e alguns centímetros para a disputa aérea. Mas, do outro lado da barricada encontrou uma equipa do Braga transfigurada daquela que nos tem sido mostrada ao longo da temporada. Quiçá motivada pelo valor do adversário, os comandados de Domingos Paciência partiram para cima do Benfica em busca da reviravolta. O primeiro golo nasce de um lance polémico entre Javi Garcia e Alan. Quanto a este lance temos uma leitura clara: há agressão? Não. Javi tenta agredir Alan? Sim. Alan, quando entra sobre Javi faz falta dura sobre este? Sim. Alan simula que é agredido? Sim. A pressão do banco do Braga é irrelevante uma vez que estamos no país em que toda e qualquer decisão do árbitro que seja assinalada contra uma equipa é passível de protestos veementes. Estes protestos ocorrem porque existem provas factuais de que resultam, em certa medida, em benefícios posteriores. Ou seja, o árbitro e seus assistentes têm uma série de decisões difíceis de assinalar ao longo de um jogo, se apenas apitassem quando tivessem 100% de certeza em determinado lance, todos os jogos haveriam faltas graves por assinalar. Muitas vezes a experiência do árbitro é decisiva para aferir se um jogador “mergulhou” para aproveitar o contexto ambiental do jogo. Se um árbitro estiver a ser altamente contestado durante um jogo, ou se errou escandalosamente no jogo anterior, a leitura de um lance difícil que possa surgir poderá ser enviesada e manipulada. Essa carga psicológica sobre os árbitros não surge somente aquando do jogo, mas ao longo da semana e manifesta-se no discurso de diversos agentes, sejam técnicos, dirigentes ou mesmo a imprensa (que também é alvo de manipulações, escandalosamente patente na “cor” de cada um dos três jornais desportivos).
Voltando ao lance de Javi com Alan. Javi Garcia é um jogador possante, combativo e físico na abordagem a determinados lances. Não é um jogador violento, mas parte do seu jogo baseia-se no forte poder de choque, e isso é uma mais-valia em diversas situações. No jogo anterior contra o Sporting, Javi Garcia agrediu impunemente com um pontapé na cara Hélder Postiga, quando este se encontrava deitado na relva a pedir uma falta inexistente. Não foi um pontapé forte para magoar seriamente Postiga, mas foi maldoso e na passada, influenciando o comportamento mental do avançado do Sporting nos lances seguintes. Este lance estava certamente na retina do juiz do jogo, que ao estudar os jogadores de ambas as equipas sabia que deveria estar a atento a este tipo de lances. Ao ser alvo de uma entrada ríspida de Alan, Javi reage instintivamente no sentido de ripostar. No entanto, o médio espanhol controla esse impulso deixando apenas no ar a intensão. Se nada tivesse sido assinalado, nem Alan se tivesse atirado para a relva, o jogo seguiria e Javi teria marcado a sua presença física sobre Alan, ou seja, em futuros lances Alan teria a certeza que Javi iria entrar duro e isso poderia ser favorável ao espanhol uma vez que o jogador do Braga teria mais cautelas de forma a não se lesionar numa bola dividida. Mas Alan é um jogador experiente e sabendo do background que subjacente à carga emocional do jogo e às características de Javi Garcia, decidiu atirar-se para o chão. E foi bem sucedido nas suas intenções, uma vez que o árbitro expulsou o espanhol. Se o lance fosse disputado de forma igual entre Alan e, por exemplo, Aimar, o mais provável era que Alan não tentasse “cavar” a agressão, uma vez que o argentino não é um jogador com características agressivas no seu jogo, muito pelo contrário, Aimar é um artista de botas nos pés e, tirando alguns “mergulhos” para tentar conquistar penalties, nada no seu jogo manifesta falta de desportivismo.
Apesar de tudo, o Benfica já tinha mostrado no Dragão e em Alvalade que sabia jogar e ganhar com apenas 10 jogadores e, naquele momento do jogo, encontrava-se a vencer por 1-0. No entanto, Roberto voltou a claudicar e destruir a estratégia de Jesus, ao sair-se pessimamente ao cruzamento do Hugo Viana, que ao sair demasiado longo, caiu em direcção da baliza empatando o jogo. Não raras vezes nesta época de estreia em Portugal o guardião espanhol cometeu erros graves. É evidente que também faz boas e decisivas intervenções, mas neste aspecto está a par com a maioria dos guarda-redes da Liga. O facto de jogar de águia ao peito faz destacar ainda mais os erros de Roberto, fazendo lembrar, em certa parte, Moretto, capaz de defender um penalty cobrado por Ronaldinho em pleno Camp Nou e de sofrer “frangos” desesperantes. O preço que Roberto trouxe na etiqueta aquando da sua aquisição faz levantar sérias suspeitas da “seriedade” do negócio, o que faz crescer ainda mais as interrogações acerca do seu real valor.
Problemas conjunturais à parte, fica patente que apesar da anunciada conquista do título nacional pelo F.C. Porto, está encontrado um rival à altura de travar a hegemonia portista dos últimos 20 anos. Com Jesus o Benfica joga futebol de grande qualidade e consegue compatibilizá-lo com vitórias. Na próxima temporada o Porto terá de ser tão perfeito como está a ser nesta (caminhando incrivelmente imaculado até agora) e isso está longe de ser fácil de alcançar. Que o diga Jesus que após chegar ao paraíso com a conquista do título em ano de estreia viu escorregar-lhe por entre os dedos a possibilidade de o renovar bem no início da época quando o escudo de campeão pesou demasiado nas camisolas dos seus jogadores.




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