O resultado do clássico de ontem, para além de nos ter trazido oficialmente o novo campeão, veio comprovar novamente a força da mentalidade e do futebol do Porto. Uma força que não é de hoje nem de ontem, mas que surgiu em meados da década de 80. Na história do nosso futebol existem três ciclos hegemónicos bem vincados, cada um para um dos três grandes. O primeiro pertence ao Sporting que em 12 épocas conquistou 8 títulos nacionais, incluindo um tri-campeonato e um tetra-campeonato, num período compreendido entre 1947 e 1958. Foi nesta era que se viram jogar os míticos 5 violinos – Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e José Travassos – que iniciaram este percurso de glória leonino. O Sporting tornou-se, assim, um grande do futebol português.
O segundo período hegemónico foi o que tornou o Benfica no clube com mais títulos de campeão nacional da história do futebol português. Iniciou-se em 1960 e prolongou-se até 1977 em 18 épocas futebolísticas traduzidas em 14 títulos para os encarnados, somando 4 tri-campeonatos neste período. Vivia-se o reinado do maior futebolista português de todos os tempos – Eusébio da Silva Ferreira. Não é de admirar que hoje exista uma estátua em sua homenagem à porta do estádio da Luz. De 1978 a 1984 viveu-se o período de maior equilíbrio entre os três grandes do nosso futebol, com o Benfica a somar 3 títulos e Sporting e Porto 2 cada um.
O terceiro período hegemónico do futebol português iniciou-se em 1985 e prolonga-se até ao presente. Em 26 anos o Porto conquistou 18 títulos nacionais dos 25 que possui no seu historial. O título conquistado ontem demonstra que o grande campeonato da época passada do Benfica poderá ser apenas um episódio esporádico desta hegemonia que parece ser inquebrável. Existe na mentalidade portista um espírito de missão, que não acaba a cada título conquistado, cuja meta final é ultrapassar o Benfica no número total de títulos nacionais. Ainda faltam 7, mas a este ritmo até 2025 o Porto irá ultrapassar o Benfica e provar que a herança de Eusébio e companheiros foi malbaratada por anos sucessivos de gestão danosa por parte dos encarnados, acabando com o último argumento de superioridade dos benfiquistas face aos portistas.
No entanto, esta época ainda está longe de terminar e os velhos rivais ainda terão um novo confronto no mesmo palco de ontem. Desta vez, o Porto terá de recuperar de uma desvantagem de dois golos, e apesar de galvanizado pela vitória de ontem, não será fácil vergar o orgulho ferido dos jogadores do Benfica capazes de bem melhor do que o demonstrado ontem. Com Airton no lugar do lesionado Maxi Pereira, com Cardozo em gestão de esforço e com Roberto a teimar na mediocridade, o Benfica teve poucos argumentos para fazer face ao rigor portista. Os argentinos do Benfica falam línguas bem diferentes no que ao futebol diz respeito. Aimar e Saviola jogam com poesia nas botas, Salvio, Gaitan e Jara jogam tudo na velocidade vertiginosa, ofuscando os magos ancestrais e o seu futebol de toque, para uma incessante loucura de dribles. O Porto foi mais fiel a si mesmo e apostou novamente no aproveitamento da subida dos laterais encarnados, principalmente Coentrão, fazendo Hulk descair nesse espaço para abrir linhas para desmarcações de Falcao, tal como verificado no lance que originou o penálti para o segundo golo azul e branco. Moutinho dá uma qualidade inequívoca ao já rico meio-campo portista e, olhando para o lote das 8 equipas que ainda estão na Liga Europa, só uma grande quebra portista impedirá que novas páginas de glória europeia se escrevam na história portista. O céu é o limite e estes homens de Villas-Boas parecem querer beber a glória do mundo todo de um trago.




