segunda-feira, 4 de abril de 2011

Culturas de vitória

O resultado do clássico de ontem, para além de nos ter trazido oficialmente o novo campeão, veio comprovar novamente a força da mentalidade e do futebol do Porto. Uma força que não é de hoje nem de ontem, mas que surgiu em meados da década de 80. Na história do nosso futebol existem três ciclos hegemónicos bem vincados, cada um para um dos três grandes. O primeiro pertence ao Sporting que em 12 épocas conquistou 8 títulos nacionais, incluindo um tri-campeonato e um tetra-campeonato, num período compreendido entre 1947 e 1958. Foi nesta era que se viram jogar os míticos 5 violinos – Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e José Travassos – que iniciaram este percurso de glória leonino. O Sporting tornou-se, assim, um grande do futebol português.

O segundo período hegemónico foi o que tornou o Benfica no clube com mais títulos de campeão nacional da história do futebol português. Iniciou-se em 1960 e prolongou-se até 1977 em 18 épocas futebolísticas traduzidas em 14 títulos para os encarnados, somando 4 tri-campeonatos neste período. Vivia-se o reinado do maior futebolista português de todos os tempos – Eusébio da Silva Ferreira. Não é de admirar que hoje exista uma estátua em sua homenagem à porta do estádio da Luz. De 1978 a 1984 viveu-se o período de maior equilíbrio entre os três grandes do nosso futebol, com o Benfica a somar 3 títulos e Sporting e Porto 2 cada um.

O terceiro período hegemónico do futebol português iniciou-se em 1985 e prolonga-se até ao presente. Em 26 anos o Porto conquistou 18 títulos nacionais dos 25 que possui no seu historial. O título conquistado ontem demonstra que o grande campeonato da época passada do Benfica poderá ser apenas um episódio esporádico desta hegemonia que parece ser inquebrável. Existe na mentalidade portista um espírito de missão, que não acaba a cada título conquistado, cuja meta final é ultrapassar o Benfica no número total de títulos nacionais. Ainda faltam 7, mas a este ritmo até 2025 o Porto irá ultrapassar o Benfica e provar que a herança de Eusébio e companheiros foi malbaratada por anos sucessivos de gestão danosa por parte dos encarnados, acabando com o último argumento de superioridade dos benfiquistas face aos portistas.

No entanto, esta época ainda está longe de terminar e os velhos rivais ainda terão um novo confronto no mesmo palco de ontem. Desta vez, o Porto terá de recuperar de uma desvantagem de dois golos, e apesar de galvanizado pela vitória de ontem, não será fácil vergar o orgulho ferido dos jogadores do Benfica capazes de bem melhor do que o demonstrado ontem. Com Airton no lugar do lesionado Maxi Pereira, com Cardozo em gestão de esforço e com Roberto a teimar na mediocridade, o Benfica teve poucos argumentos para fazer face ao rigor portista. Os argentinos do Benfica falam línguas bem diferentes no que ao futebol diz respeito. Aimar e Saviola jogam com poesia nas botas, Salvio, Gaitan e Jara jogam tudo na velocidade vertiginosa, ofuscando os magos ancestrais e o seu futebol de toque, para uma incessante loucura de dribles. O Porto foi mais fiel a si mesmo e apostou novamente no aproveitamento da subida dos laterais encarnados, principalmente Coentrão, fazendo Hulk descair nesse espaço para abrir linhas para desmarcações de Falcao, tal como verificado no lance que originou o penálti para o segundo golo azul e branco. Moutinho dá uma qualidade inequívoca ao já rico meio-campo portista e, olhando para o lote das 8 equipas que ainda estão na Liga Europa, só uma grande quebra portista impedirá que novas páginas de glória europeia se escrevam na história portista. O céu é o limite e estes homens de Villas-Boas parecem querer beber a glória do mundo todo de um trago.

sábado, 2 de abril de 2011

Um clássico para o título

A conjuntura seria mais perfeita se este jogo fosse de título para ambas as equipas, no entanto, o título está mais do que do lado dos portistas, restando saber quando e onde é que os comandados de André Villas-Boas vão fazer a festa. O estádio da Luz é o primeiro local onde uma vitória portista poderá levar às ruas do Porto milhares de adeptos em celebração pela reconquista do título, no entanto, do outro lado vão encontrar o único adversário português à altura do futebol do Porto. Jorge Jesus promete jogar com um Benfica de ataque, distinto daquele que conseguiu vencer no Dragão para a Taça de Portugal. Se nos lembrarmos desse último clássico entre dragões e águias, recordamos um Porto sem ideias e com futebol previsível, frente a um Benfica concentrado e muito bem posicionado em todo o relvado. Um jogo sem falhas da parte dos ainda campeões nacionais, exceptuado a expulsão de Fábio Coentrão.

Para o jogo de amanhã o factor casa poderá levar o Benfica a adoptar uma postura mais dominadora no encontro, ou pelo menos, tentar dominar. Do outro lado, o Porto em franco crescendo de forma, terá como primeira tarefa entrar no jogo concentrado e abstraído do circo que se montou em torno deste jogo, uma vergonha para o futebol português. A violência não passa ao lado dos jogadores, sendo que na primeira volta do campeonato o Benfica foi extremamente ameaçado por actos de violência de fanáticos adversários que, em certa parte, explicam o desvario que foi plasmado no relvado, com um 5-0 final histórico. Nestes dias que antecederam o clássico de amanhã, dirigentes encarnados e portistas voltaram a abrir a ferida da violência, cabendo-nos apenas esperar que nada de grave aconteça amanhã e que a rivalidade se cinja ao jogo de futebol.

Para Villas-Boas surge uma boa dor de cabeça para este jogo, face ao futebol que Guarín tem demonstrado nos últimos tempos. A sua colocação em campo em detrimento de Bellushi no onze inicial não será descabida, no entanto, um Benfica mais ofensivo poderia abrir mais espaços na retaguarda que poderiam ser aproveitados com a superior leitura de jogo do argentino. Sem dúvida que problemas destes todos os treinadores desejam. Jorge Jesus terá de saber gerir bem o momento dos seus jogadores. Tal como referimos anteriormente, o Benfica apresenta-se numa trajectória descendente após o apogeu de 18 vitórias consecutivas em todas as competições. Será que amanhã Jesus terá os jogadores do Benfica que jogaram em Paços de Ferreira, ou os que receberam o PSG na Luz? Apesar de ambos os jogos o Benfica ter vencido, é evidente que uma exibição frente ao Porto igual à que vergou os franceses por 2-1 será insuficiente para travar a festa portista, tal a qualidade do conjunto azul. A nossa aposta vai para uma vitória do Porto, uma vez que é a única equipa que corre face a um objectivo concreto, a um título, a uma vingança ante um rival que na época anterior sentenciou o insucesso do Porto no estádio da Luz, com a polémica suspensão de Hulk e Sapunaru. Ao Benfica resta-lhe defender a sua honra e não permitir a festa dos seus adversários em plena casa da águia, retribuindo ao Porto a receita aplicada pelos dragões na época passada que não permitiram a festa do Benfica no Dragão. Assim, a melhor qualidade do futebol do Porto face ao do Benfica (também muito bom, diga-se) aliada ao sentimento de conquista, serão as bases para o triunfo portista de amanhã. Ou será que os jogadores do Benfica terão um último grito de campeões?