sábado, 14 de maio de 2011

2010/2011: Balanço de uma época

Costuma-se afirmar metaforicamente que um campeonato é uma corrida de fundo e não um mero sprint de 100 metros. No entanto, no futebol existe uma certa tendência para valorizar o sprint final e esquecer um pouco o resto da corrida. Imagine-se uma maratona olímpica, neste momento estamos dentro do estádio em que o vencedor entra sozinho e é ovacionado pela multidão expectante. O Porto é esse vencedor, numa corrida em que era considerado o segundo favorito à vitória, mas que acabou por liderar do princípio ao fim aumentando progressivamente a vantagem para o segundo classificado. Esse segundo classificado, o Benfica, partia como favorito, mas desde cedo não teve resposta para o ritmo do Porto. Houve, no meio do percurso, um forcing do Benfica, a fazer lembrar a prestação da época anterior com um ciclo de vitórias espectacular. Mas o líder não claudicou e igualou um record que só o Benfica de tempos distantes havia conseguido, acabando o campeonato sem uma única derrota.

Apesar de tudo, o sentimento generalizado é de que o Benfica teve uma péssima época, com fracassos em toda a linha. Isto é verdade se pensarmos no sprint final e não na corrida toda. A realidade é, porém, muito diferente de um rotundo fracasso. É certo que não conseguiu revalidar o título nacional, mas o Benfica nestas duas temporadas veio recuperar um lugar que perdera para o Sporting desde 2005. Foram 4 épocas em que os encarnados ficaram sempre atrás do rival de Alvalade. Com Jorge Jesus o Benfica recuperou o título de campeão logo na primeira época e perdeu-o na presente para um Porto de outra galáxia. A sua continuidade no banco do Benfica é garante de organização táctica da equipa e princípios de jogo bem vincados e capacidade de suportar uma ambição realista de reconquista do campeonato face a um Porto muito forte.

O Sporting, por seu turno, foi capaz de passar por cima do sprínter Braga, que graças um fim de época empolgante, principalmente pela prestação na Liga Europa, parecer ser a segunda força do campeonato, quando na realidade continua longe disso. Com 46 pontos, o Braga foi muito inferior ao da época anterior em que fez 71 pontos. São menos 25 pontos, ao passo que o Benfica fez menos 13 pontos do que na época passada. No entanto, o sentimento actual é de que Domingos fez uma época brilhante, deixando muitas saudades em Braga, ao passo que Jesus tem o lugar em risco e caminhará sobre brasas na próxima temporada. É óbvio que o brilharete na Liga Europa empolou a fleuma em torno do Braga, mas acabou por ser uma meia-final disputadíssima frente ao Benfica, decidida apenas na diferença de golos marcados fora de casa. Assim, Domingos levará na bagagem para Alvalade (a sua mudança parece garantidíssima face às declarações de elementos do Sporting e do Braga após o jogo de hoje) um currículo de sucesso, quando acabou por fazer um campeonato miserável face ao que fez na sua época de estreia em Braga. Por outro lado, leva uma época europeia de sonho, face a uma época europeia desastrosa na época anterior. Será Domingos capaz de tornar o Sporting competitivo na frente nacional e na frente europeia ao mesmo tempo? Se conseguir pelo menos numa delas já não será mau para um clube em estado de hibernação desde o adeus de Paulo Bento. 

No final, nesta temporada o Sporting não piorou nem melhorou face à anterior, mantendo um total de 48 pontos no final do campeonato. Se atentarmos à conjuntura actual até parece que esta época foi muito pior do que anterior, quando na realidade foi igualmente má. Inverter este ciclo perigoso é urgente para o Sporting presidido por Godinho Lopes, sob pena de entrar num processo semelhante ao que Benfica andou entre 2005 e 2009, só levantado sob a batuta de Jorge Jesus. Em suma, e pensando na metáfora do atletismo, o Porto percorre o estádio e vence em grande estilo igualando o record de sempre de invencibilidade. O Benfica chega atrás isolado, bem depois do Porto e bem longe do Sporting, mas deprimido pela forma como piorou desde a maratona anterior. O Sporting ultrapassa o Braga na última curva e pensa como será possível aguentar no próximo ano a passada do Porto. O Braga que tão bem correu nos últimos quilómetros da maratona, ao passar a meta só pensa que terá de fazer um sprint de sonho daqui a uns dias contra o Porto que já anda há 15 minutos a passear com a bandeira às costas pelo estádio…

Abrem-se agora a hostilidades para a preparação da próxima maratona, com saídas e entradas e o circo habitual do defeso. Será que alguém terá resposta para este Porto? Cá estaremos para analisar os próximos desenvolvimentos.