sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Ao ritmo do talento


Existem inúmeros factores por trás do sucesso de uma equipa. Mas existe um especificamente que potencia todas as outras – o talento. O Benfica para a época de 2011/12 vai arrancar com uma dose extra de talento face ao ano transacto. Esse incremento espelha-se, essencialmente, nas entradas de Garay, Witsel, Nolito, Enzo Pérez e Bruno César. Destaco apenas estes jogadores da restante onda de reforços por considerar que poderão emprestar muito mais valor aos encarnados. Emerson ou Capdevilla irão assumir também uma parte importante na manobra da equipa, no entanto, o seu impacto no presente será menor do que os supracitados. Os restantes reforços são enormes pontos de interrogação e terão de provar o seu valor com muito trabalho ao longo da temporada, como os casos de Mora, Matic, David Simão, Urreta e Nelson Oliveira.
Para hoje em Barcelos o Benfica deverá apresentar um onze assente num 4-1-4-1 muito dinâmico, com Witsel a descer mais no momento defensivo organizado desenhando um 4-2-3-1 no campo. No momento de transição defensiva a pressão alta que o Benfica aplica sobre o adversário aquando da perda da posse no último terço do terreno faz com que desenhe um 4-3-3 com Aimar a pressionar bem alto pelo flanco direito, Saviola a pressionar a zona central e Nolito mais descaído pela esquerda. No momento de organização ofensiva o Benfica poderá desenhar um 4-1-3-2 com Nolito a subir para zonas de finalização a par de Saviola, com Gaitán partindo de frente para o jogo sobre a direita. Neste momento do jogo Aimar e Witsel ocuparão zonas mais centrais, com o belga a fazer a cobertura ofensiva consoante o posicionamento de Gaitán e Nolito, compensando as investidas que qualquer um dos dois possa fazer na direita ou na esquerda posicionando-se, ora na meia-direita, ora na meia-esquerda.
Assim, prevê-se um onze inicial composto por Artur na baliza; Rúben Amorim, Jardel, Garay e Emerson na defesa; Javi Garcia, Witsel, Aimar, Gaitán e Nolito no meio-campo; e Saviola no ataque. Porquê Witsel e não Enzo Pérez? Apenas pelo estado de graça do belga e da condição física do argentino que vem de uma lesão muscular, uma vez que ambos podem cumprir o mesmo papel no esquema táctico acima descrito. O belga dá mais vigor físico, mas perde em criatividade para o talentoso argentino. Porquê Nolito e não Cardozo? Também pelo estado de graça do espanhol e pela sua atitude dentro do campo num jogo tão especial como o de hoje. Nolito oferece muito maior agressividade ao ataque do Benfica do que Cardozo e essa atitude de partir para cima do adversário imprimindo grande velocidade ao ataque pode ser um elemento chave para o Benfica conseguir encostar o Gil Vicente atrás e chegar a um golo que lhe permita gerir melhor o ritmo do jogo.

A defesa poderá ser o principal problema do Benfica para hoje. Com Maxi Pereira a regressar de férias e sem ritmo, Rúben Amorim deverá ser o titular, mas a sua prestação frente ao Arsenal revelou falta de entrosamento nas subidas da linha defensiva deixando os avançados permanentemente em jogo. Jardel, Garay e Emerson pela falta de conhecimento mútuo poderão levar a uma limitação nas subidas no terreno o que poderá conduzir a uma falta de ligação com o meio campo, levando a um incremento do espaço entre linhas. Será Javi Garcia a ter de ocupar esse espaço, sendo Witsel um vaivém, ora apoiando o ataque, ora recuperando para restabelecer o equilíbrio defensivo. Até aqui Witsel parece ser melhor escolha do que Enzo Pérez porque a sua estampa física e passada larga poderá ser a chave para impedir alguns ataques em transição dos gilistas.
Em suma, do ponto de vista organizativo o Benfica apresenta algumas debilidades na ligação entre a defesa e o resto da equipa devido aos seus defesas serem mais competentes a jogar em bloco baixo do que em bloco alto, com especial destaque para Jardel e Amorim (apesar de ser um médio tem dificuldades na aplicação do momento de subida e descida da linha defensiva). No entanto, a nível ofensivo Aimar tem estado em evidência na pré-temporada e com dois jogadores à sua frente que soltam tão bem a bola como Nolito e Saviola este jogo promete. Gaitán será o joker do ataque dos encarnados, uma vez que a forma sublime como conduz a bola e queima linhas da equipa adversária permite-lhe sozinho ser capaz de resolver o jogo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Silly Season

A nova temporada da Liga Portuguesa está aí à porta e neste momento é possível determinar um pouco melhor as linhas orientadoras das diferentes equipas. Neste pormenor, aliás, vivemos um tempo de contrastes, com os clubes como reféns da ditadura do mercado, como se este agisse sozinho e sem a vontade dos homens como seu motor. Como em tudo na vida, tecer generalidades nesta questão será eminentemente redutor, encontrando exemplos em toda a parte de como as carreiras dos jogadores podem seguir rumos completamente distintos, desde o mais nómada, ao mais fiel ao clube de pertença. Criticar os Anelkas deste mundo é um raciocínio simplista e frequente em quem procura compreender o futebol apenas do ponto de vista do adepto, no entanto a gestão da carreira é algo extremamente complexo para qualquer jogador em que só a prática desportiva da profissão, por si só, é já de exigência máxima. Daí que, nos dias de hoje, se veja o impacto que os empresários de jogadores representam para a definição da organização dos clubes e das consequências que tal impacto provoca no futebol jogado de cada equipa. Deste choque paradigmático ressaltam diversas indefinições e para esta temporada encontramos diversos exemplos no futebol português de como o mercado pode definir uma época.

Pegando no exemplo temporada anterior é possível verificar semelhanças no comportamento do clube que ostenta o escudo de campeão nacional. O Benfica campeão em 2009/10 partiu para a época transacta perdendo duas peças do 11 inicial (Di Maria e Ramires) e mantendo a restante estrutura adicionando jogadores já contratados com muito tempo de antecedência face à pré-época (Jara, Gaitán, Roberto...). O Porto campeão 2010/11 parte agora para a nova temporada com a mesma equipa, sem retirar nenhum jogador do 11 inicial, mas perdendo o treinador principal. Os reforços também estavam contratados com muita antecedência face à pré-temporada (Iturbe, Djalma, Kléber, Kelvin...). Aliás, o Porto actual já compra jogadores com vista a reforçarem a equipa em Dezembro, o que parece mais um constrangimento resutante das negociações com o clube de origem de Danilo e Alex Sandro, do que propriamente por vontade do Porto em ter os jogadores a meio da temporada. O Benfica campeão perdeu dois jogadores e não teve um desempenho tão mau como se pintou nos jornais, isolando-se no segundo lugar do campeonato. O problema para os encarnados foi a super-equipa que André Villas Boas montou e que passeou incólume pela Liga Portuguesa, conquistando a Liga Europa e pintando de glória a passagem do novo técnico do Chelsea pelo Porto. Assim, e apesar de ter piorado face à época anterior, a postura face ao mercado do Benfica campeão foi a mais adequada, descendo um pouco o seu rendimento em virtude da saída de dois jogadores que até se assumiram como titulares de Real Madrid e Chelsea. Para este ano, o Benfica actual já perdeu mais dois jogadores da anterior equipa campeã e, curiosamente, de novo para o Chelsea (David Luiz) e Real Madrid (Fábio Coentrão). O que demonstra que a gestão do plantel é bem ponderada, aproveitando a exigente conjuntura desportiva interna (com um Porto absolutamente imbatível) para capitalizar os activos mais valiosos no mercado. Os quatro jogadores acima referidos (Di Maria, Ramires, David Luiz e Fábio Coentrão) são todos jovens e de grande qualidade, logo, extremamente valiosos. Por outro lado, é importante não esquecer que desportivamente Aimar, Saviola e Luisão são os jogadores mais importantes do Benfica, no entanto o seu impacto no mercado não se compara ao dos mais jovens. Faz, por isso, sentido montar uma equipa jovem com muito talento e potencial em torno destes 3 pilares, uma vez que isso poderá aumentar o seu valor desportivo, ajudando na conquista de títulos e, posteriormente, transformá-los em fortes dividendos financeiros (Gaitán, Witsel, Garay, Peréz, Nolito, Jara, Rodrigo...). Não é por mau planeamento estratégico a longo prazo que o Benfica poderá demonstrar sub-rendimento, mas antes por uma incapacidade para pensar bem a curto/médio prazo (argumento plasmado na terrivelmente gerida pré-temporada dos encarnados, incapazes de dar à sua equipa técnica um plantel bem definido atempadamente).

O Porto actual manteve as suas pedras basilares, com um grande senão: a perda do arquitecto da equipa, do homem que introduziu no futebol dos portistas algo mais do que as transições rápidas de Jesualdo, catapultando o dragões para o sucesso internacional - André Villas Boas. Pinto da Costa tentou reduzir os danos da saída de AVB o máximo possível apostando na única solução que poderia dar continuidade a esse futebol de top que o Porto do ano passo apresentou: o adjunto de Villas Boas. Será Vitor Pereira capaz de fazer face ao desafio? Em termos técnicos Filipe Vieira de Sá do Jogo Directo fez aqui a melhor caracterização do futebol apresentado pelo Porto que encontrei publicada, pelo que recomendo vivamente a sua leitura para que não cometa o erro habitual de justificar o sucesso do Porto com em polémicas de corrupção. A nível de gestão do clube o Porto apresenta as mesmas bases do Benfica, apostando atempadamente nos valores emergentes no mercado internacional (em especial o sul-americano) e juntando-os a 3 pilares intocáveis no 11 inicial (Hulk, Moutinho e Falcão). Ao contrário do Benfica, estes três jogadores têm muito mercado, pelo que a sua perda seria um duro golpe a nível desportivo, mas, ao mesmo tempo, dotaria o clube de muito dinheiro para investir forte em jogadores que os possam substituir com garantias para o imediato. Apesar de tudo, Hulk é o mais importante dos três, uma vez que a equipa já se encontra montada de uma forma tão organizada que até um jogador tão displicente na protecção da posse de bola (a grande bandeira do futebol de top actual) é aproveitado de uma forma tal, que as suas qualidades desequilibram qualquer adversário, em especial aqueles que arriscam pensar que é a marcação individual que vai parar Hulk (e Jesus que o diga).  A performance de Hulk é apenas o sintoma de algo que tem origem no trabalho dos outros jogadores, por isso é que bater este Porto exige muito mais do que parar o seu jogador mais valioso. Vitor Pereira parece querer manter tudo de bom que foi implementado por Villas Boas, acrescentando um cunho pessoal mais ambicioso que cative e motive os seus jogadores para inverterem o processo normal de quem atinge o topo: descer.

O Sporting é, sem dúvida, o principal agitador do defeso português e apesar de toda a euforia e onda de entusiasmo muito bem montada pelo direcção, o caminho que Domingos terá de percorrer com os seus jogadores é tão longo que só algo de muito especial poderia colocar o Sporting na luta pelo título com Porto e Benfica. São tantas coisas básicas a assimilar nos processos de jogo pela equipa que só a capacidade individual e inspiração dos seus jogadores poderá manter a equipa no topo até o projecto de Domingos começar a correr a velocidade cruzeiro. Neste aspecto, as expectativas face a Diego Capel, Jeffrén, Wolfswinkel, Rinaudo, Schaars, Bojinov, Yannick, Matias, Postiga, Rodriguez e Onyewu são mais do que muitas, uma vez que jaz nos seus talentos as esperanças de termos uma luta a 3 pelo título nacional 2011/12.

sábado, 14 de maio de 2011

2010/2011: Balanço de uma época

Costuma-se afirmar metaforicamente que um campeonato é uma corrida de fundo e não um mero sprint de 100 metros. No entanto, no futebol existe uma certa tendência para valorizar o sprint final e esquecer um pouco o resto da corrida. Imagine-se uma maratona olímpica, neste momento estamos dentro do estádio em que o vencedor entra sozinho e é ovacionado pela multidão expectante. O Porto é esse vencedor, numa corrida em que era considerado o segundo favorito à vitória, mas que acabou por liderar do princípio ao fim aumentando progressivamente a vantagem para o segundo classificado. Esse segundo classificado, o Benfica, partia como favorito, mas desde cedo não teve resposta para o ritmo do Porto. Houve, no meio do percurso, um forcing do Benfica, a fazer lembrar a prestação da época anterior com um ciclo de vitórias espectacular. Mas o líder não claudicou e igualou um record que só o Benfica de tempos distantes havia conseguido, acabando o campeonato sem uma única derrota.

Apesar de tudo, o sentimento generalizado é de que o Benfica teve uma péssima época, com fracassos em toda a linha. Isto é verdade se pensarmos no sprint final e não na corrida toda. A realidade é, porém, muito diferente de um rotundo fracasso. É certo que não conseguiu revalidar o título nacional, mas o Benfica nestas duas temporadas veio recuperar um lugar que perdera para o Sporting desde 2005. Foram 4 épocas em que os encarnados ficaram sempre atrás do rival de Alvalade. Com Jorge Jesus o Benfica recuperou o título de campeão logo na primeira época e perdeu-o na presente para um Porto de outra galáxia. A sua continuidade no banco do Benfica é garante de organização táctica da equipa e princípios de jogo bem vincados e capacidade de suportar uma ambição realista de reconquista do campeonato face a um Porto muito forte.

O Sporting, por seu turno, foi capaz de passar por cima do sprínter Braga, que graças um fim de época empolgante, principalmente pela prestação na Liga Europa, parecer ser a segunda força do campeonato, quando na realidade continua longe disso. Com 46 pontos, o Braga foi muito inferior ao da época anterior em que fez 71 pontos. São menos 25 pontos, ao passo que o Benfica fez menos 13 pontos do que na época passada. No entanto, o sentimento actual é de que Domingos fez uma época brilhante, deixando muitas saudades em Braga, ao passo que Jesus tem o lugar em risco e caminhará sobre brasas na próxima temporada. É óbvio que o brilharete na Liga Europa empolou a fleuma em torno do Braga, mas acabou por ser uma meia-final disputadíssima frente ao Benfica, decidida apenas na diferença de golos marcados fora de casa. Assim, Domingos levará na bagagem para Alvalade (a sua mudança parece garantidíssima face às declarações de elementos do Sporting e do Braga após o jogo de hoje) um currículo de sucesso, quando acabou por fazer um campeonato miserável face ao que fez na sua época de estreia em Braga. Por outro lado, leva uma época europeia de sonho, face a uma época europeia desastrosa na época anterior. Será Domingos capaz de tornar o Sporting competitivo na frente nacional e na frente europeia ao mesmo tempo? Se conseguir pelo menos numa delas já não será mau para um clube em estado de hibernação desde o adeus de Paulo Bento. 

No final, nesta temporada o Sporting não piorou nem melhorou face à anterior, mantendo um total de 48 pontos no final do campeonato. Se atentarmos à conjuntura actual até parece que esta época foi muito pior do que anterior, quando na realidade foi igualmente má. Inverter este ciclo perigoso é urgente para o Sporting presidido por Godinho Lopes, sob pena de entrar num processo semelhante ao que Benfica andou entre 2005 e 2009, só levantado sob a batuta de Jorge Jesus. Em suma, e pensando na metáfora do atletismo, o Porto percorre o estádio e vence em grande estilo igualando o record de sempre de invencibilidade. O Benfica chega atrás isolado, bem depois do Porto e bem longe do Sporting, mas deprimido pela forma como piorou desde a maratona anterior. O Sporting ultrapassa o Braga na última curva e pensa como será possível aguentar no próximo ano a passada do Porto. O Braga que tão bem correu nos últimos quilómetros da maratona, ao passar a meta só pensa que terá de fazer um sprint de sonho daqui a uns dias contra o Porto que já anda há 15 minutos a passear com a bandeira às costas pelo estádio…

Abrem-se agora a hostilidades para a preparação da próxima maratona, com saídas e entradas e o circo habitual do defeso. Será que alguém terá resposta para este Porto? Cá estaremos para analisar os próximos desenvolvimentos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Culturas de vitória

O resultado do clássico de ontem, para além de nos ter trazido oficialmente o novo campeão, veio comprovar novamente a força da mentalidade e do futebol do Porto. Uma força que não é de hoje nem de ontem, mas que surgiu em meados da década de 80. Na história do nosso futebol existem três ciclos hegemónicos bem vincados, cada um para um dos três grandes. O primeiro pertence ao Sporting que em 12 épocas conquistou 8 títulos nacionais, incluindo um tri-campeonato e um tetra-campeonato, num período compreendido entre 1947 e 1958. Foi nesta era que se viram jogar os míticos 5 violinos – Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e José Travassos – que iniciaram este percurso de glória leonino. O Sporting tornou-se, assim, um grande do futebol português.

O segundo período hegemónico foi o que tornou o Benfica no clube com mais títulos de campeão nacional da história do futebol português. Iniciou-se em 1960 e prolongou-se até 1977 em 18 épocas futebolísticas traduzidas em 14 títulos para os encarnados, somando 4 tri-campeonatos neste período. Vivia-se o reinado do maior futebolista português de todos os tempos – Eusébio da Silva Ferreira. Não é de admirar que hoje exista uma estátua em sua homenagem à porta do estádio da Luz. De 1978 a 1984 viveu-se o período de maior equilíbrio entre os três grandes do nosso futebol, com o Benfica a somar 3 títulos e Sporting e Porto 2 cada um.

O terceiro período hegemónico do futebol português iniciou-se em 1985 e prolonga-se até ao presente. Em 26 anos o Porto conquistou 18 títulos nacionais dos 25 que possui no seu historial. O título conquistado ontem demonstra que o grande campeonato da época passada do Benfica poderá ser apenas um episódio esporádico desta hegemonia que parece ser inquebrável. Existe na mentalidade portista um espírito de missão, que não acaba a cada título conquistado, cuja meta final é ultrapassar o Benfica no número total de títulos nacionais. Ainda faltam 7, mas a este ritmo até 2025 o Porto irá ultrapassar o Benfica e provar que a herança de Eusébio e companheiros foi malbaratada por anos sucessivos de gestão danosa por parte dos encarnados, acabando com o último argumento de superioridade dos benfiquistas face aos portistas.

No entanto, esta época ainda está longe de terminar e os velhos rivais ainda terão um novo confronto no mesmo palco de ontem. Desta vez, o Porto terá de recuperar de uma desvantagem de dois golos, e apesar de galvanizado pela vitória de ontem, não será fácil vergar o orgulho ferido dos jogadores do Benfica capazes de bem melhor do que o demonstrado ontem. Com Airton no lugar do lesionado Maxi Pereira, com Cardozo em gestão de esforço e com Roberto a teimar na mediocridade, o Benfica teve poucos argumentos para fazer face ao rigor portista. Os argentinos do Benfica falam línguas bem diferentes no que ao futebol diz respeito. Aimar e Saviola jogam com poesia nas botas, Salvio, Gaitan e Jara jogam tudo na velocidade vertiginosa, ofuscando os magos ancestrais e o seu futebol de toque, para uma incessante loucura de dribles. O Porto foi mais fiel a si mesmo e apostou novamente no aproveitamento da subida dos laterais encarnados, principalmente Coentrão, fazendo Hulk descair nesse espaço para abrir linhas para desmarcações de Falcao, tal como verificado no lance que originou o penálti para o segundo golo azul e branco. Moutinho dá uma qualidade inequívoca ao já rico meio-campo portista e, olhando para o lote das 8 equipas que ainda estão na Liga Europa, só uma grande quebra portista impedirá que novas páginas de glória europeia se escrevam na história portista. O céu é o limite e estes homens de Villas-Boas parecem querer beber a glória do mundo todo de um trago.

sábado, 2 de abril de 2011

Um clássico para o título

A conjuntura seria mais perfeita se este jogo fosse de título para ambas as equipas, no entanto, o título está mais do que do lado dos portistas, restando saber quando e onde é que os comandados de André Villas-Boas vão fazer a festa. O estádio da Luz é o primeiro local onde uma vitória portista poderá levar às ruas do Porto milhares de adeptos em celebração pela reconquista do título, no entanto, do outro lado vão encontrar o único adversário português à altura do futebol do Porto. Jorge Jesus promete jogar com um Benfica de ataque, distinto daquele que conseguiu vencer no Dragão para a Taça de Portugal. Se nos lembrarmos desse último clássico entre dragões e águias, recordamos um Porto sem ideias e com futebol previsível, frente a um Benfica concentrado e muito bem posicionado em todo o relvado. Um jogo sem falhas da parte dos ainda campeões nacionais, exceptuado a expulsão de Fábio Coentrão.

Para o jogo de amanhã o factor casa poderá levar o Benfica a adoptar uma postura mais dominadora no encontro, ou pelo menos, tentar dominar. Do outro lado, o Porto em franco crescendo de forma, terá como primeira tarefa entrar no jogo concentrado e abstraído do circo que se montou em torno deste jogo, uma vergonha para o futebol português. A violência não passa ao lado dos jogadores, sendo que na primeira volta do campeonato o Benfica foi extremamente ameaçado por actos de violência de fanáticos adversários que, em certa parte, explicam o desvario que foi plasmado no relvado, com um 5-0 final histórico. Nestes dias que antecederam o clássico de amanhã, dirigentes encarnados e portistas voltaram a abrir a ferida da violência, cabendo-nos apenas esperar que nada de grave aconteça amanhã e que a rivalidade se cinja ao jogo de futebol.

Para Villas-Boas surge uma boa dor de cabeça para este jogo, face ao futebol que Guarín tem demonstrado nos últimos tempos. A sua colocação em campo em detrimento de Bellushi no onze inicial não será descabida, no entanto, um Benfica mais ofensivo poderia abrir mais espaços na retaguarda que poderiam ser aproveitados com a superior leitura de jogo do argentino. Sem dúvida que problemas destes todos os treinadores desejam. Jorge Jesus terá de saber gerir bem o momento dos seus jogadores. Tal como referimos anteriormente, o Benfica apresenta-se numa trajectória descendente após o apogeu de 18 vitórias consecutivas em todas as competições. Será que amanhã Jesus terá os jogadores do Benfica que jogaram em Paços de Ferreira, ou os que receberam o PSG na Luz? Apesar de ambos os jogos o Benfica ter vencido, é evidente que uma exibição frente ao Porto igual à que vergou os franceses por 2-1 será insuficiente para travar a festa portista, tal a qualidade do conjunto azul. A nossa aposta vai para uma vitória do Porto, uma vez que é a única equipa que corre face a um objectivo concreto, a um título, a uma vingança ante um rival que na época anterior sentenciou o insucesso do Porto no estádio da Luz, com a polémica suspensão de Hulk e Sapunaru. Ao Benfica resta-lhe defender a sua honra e não permitir a festa dos seus adversários em plena casa da águia, retribuindo ao Porto a receita aplicada pelos dragões na época passada que não permitiram a festa do Benfica no Dragão. Assim, a melhor qualidade do futebol do Porto face ao do Benfica (também muito bom, diga-se) aliada ao sentimento de conquista, serão as bases para o triunfo portista de amanhã. Ou será que os jogadores do Benfica terão um último grito de campeões?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Primeiro olhar: Bruno César

Chegou hoje a Lisboa um dos reforços para o Benfica 2011/12, o brasileiro Bruno César de 22 anos oriundo do Corinthians. O que é de esperar deste jogador? Em primeiro lugar não se pense que com Bruno César o Benfica adquirirá, pela sua juventude, mais velocidade na posição de “número 10”. Bruno César é lento a correr e driblar, no entanto é rápido na decisão, isto no campeonato brasileiro em que o ritmo é bem mais pausado. O seu principal desafio será adaptar-se a uma realidade que lhe exigirá mais velocidade a soltar a bola e, consequentemente, a prever a jogada que irá acontecer. Não é, por conseguinte, um jogador atlético, apesar de ser corpulento. É canhoto e tem muita técnica no controlo de bola e no passe, longo ou curto. Para a nossa realidade mais próxima, digamos que estamos perante um jogador parecido com Miguel Veloso apesar de jogar numa zona mais avançada do terreno. As parecenças residem na técnica de posse e de passe da bola, na mais-valia que constitui nos lances de bola parada, em que o Benfica ganha um jogador capaz de marcar cantos ou livres junto às laterais para a área com muito perigo. O pé direito é pouquíssimo utilizado e mesmo nos passes longos que pedem um pé direito, o jogador opta por batê-los de trivela, com grande qualidade técnica, diga-se. Em suma, é um jogador que não se prende à bola e é capaz de a endossar com qualidade para os colegas. A sua capacidade de se integrar no jogo europeu, bem mais rápido e frenético que o brasileiro, será a chave para o seu sucesso no Benfica e nesse aspecto Jesus terá um papel fulcral. Por outro lado, a capacidade que Bruno César demonstra ao privilegiar o passe vertical para o avançado, dando-lhe imediatamente apoio noutra posição desmarcando-se, denota que é um jogador inteligente e que não se limita a fazer passes a rasgar aguardando estático que alguém resolva o resto da jogada. Este dinamismo combinado com a qualidade de Saviola no jogo entre linhas e com os frenéticos Gaitán e Fábio Coentrão a romper na ala esquerda podem causar mossa nas equipas adversárias. Pela quantia que é avançada pela comunicação social (entre 7 e 8 milhões de euros) o Benfica parece estar a dar um passo certo para o futuro, visto que Aimar caminha para o crepúsculo da carreira e Martins teima em não evoluir o suficiente para dar garantias de qualidade na posição do astro argentino.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pilares

Vivem-se momentos decisivos para o futebol leonino. Nos próximos dias ir-se-á escolher um novo caminho para o Sporting. Desta feita a pluralidade de ideias manifestou-se e os sócios terão oportunidade de optar por uma das diferentes soluções apresentadas. Foi, sem dúvida, um claro sinal de vitalidade de um clube que parecia moribundo e que encontra neste novo período uma possibilidade de recuperar e soltar-se do que o prende contra a parede. Se este novo fôlego e resiliência manifestada a nível directivo é de saudar, a nível desportivo, no que ao futebol diz respeito, é importante perceber o que é que resta e quais são os pilares nos quais se deve construir o futuro próximo do Sporting. As propostas eleitorais a nível técnico incidem numa aposta clara pela escola holandesa, caracterizada pelo futebol ofensivo e tecnicista, alicerçado numa estrutura que promove a formação de jogadores. É, sem sombra de dúvidas, uma filosofia que está no ADN do Sporting Clube Portugal desde sempre. Esta concomitância ideológica poderá trazer grandes benefícios para Sporting, quer a curto, quer a médio-longo prazo. Se a ideologia permitirá construir um futuro promissor e adequado à história do clube a longo prazo, a urgência do futuro próximo pede competência mais do que ideológica a um treinador. Exige-lhe grande competência na construção táctica da equipa, tão fustigada esta temporada. Esta descaracterização na arquitectura táctica que a era Paulo Sérgio trouxe fez crescer um enorme ponto de interrogação no valor dos actuais jogadores e na capacidade destes contribuírem para o futuro do amanhã.

Desta forma, debrucemo-nos no tema principal deste post: quais são os jogadores pilares do actual futebol do Sporting? Sobre que núcleo de jogadores se deve construir? A saída de Liedson constituiu o derrube de um desses eventuais pilares, uma vez que o seu estilo de jogo influenciava em grande medida a dinâmica ofensiva da equipa, ou seja, poucos apoios frontais para os médios, detrimento do passe vertical pelo centro do terreno e primazia pela verticalidade nos flancos, potenciando o oportunismo de Liedson e desorganização defensiva das outras equipas. Foi assim que Liedson coleccionou golos nos últimos anos e conquistou o coração dos adeptos do Sporting, sendo de longe o jogador mais influente do Sporting a nível ofensivo. O presente, no entanto, não contempla Liedson, e o actual ponta-de-lança titular do Sporting é Hélder Postiga. Vale a pena construir sobre Postiga? Claro que sim. A ineficácia do avançado português é desesperante e o número de lances que cria é incompatível com a quantidade de golos que tem. Postiga carece de mais concentração no momento de finalizar, porque leitura e vontade de marcar tem de sobra. No entanto, o jogo de Postiga abre espaço para o surgimento de um colega avançado que saiba ler o jogo com inteligência e aproveitar as oportunidades que Postiga oferece como segundo avançado. Não será necessário um “pinheiro” que se limite a encostar para o fundo da rede, mas um bom finalizador que aproveite lendo o jogo que o avançado português cria, aproveitando o espaço e ajudando Postiga no apoio vertical aos médios, sem destruir esse futebol envolvente que Liedson nunca soube interpretar.


No meio-campo um dos pilares é Jaime Valdés, de longe o melhor médio do Sporting. A sua capacidade táctica e técnica, aliada a larga experiência competitiva oferecem ao Sporting garantias para o presente e para as próximas épocas, uma vez que é capaz de se tornar no líder de balneário que tanto carece a equipa leonina. Saber aproveitar Valdés para ser mais do que um mero jogador a prazo e torná-lo numa referência para as gerações vindouras poderá ser o segredo para promover o fim da mediocridade a nível de jovens médios ofensivos do futebol português. Por seu turno, André Santos e Pedro Mendes são duas peças que, por razões diferentes, muito podem fazer pelo Sporting. Pedro Mendes é um jogador cujas capacidades atléticas começam a fazer a diferença pela negativa no seu futebol, que nunca foi físico. As lesões que vem acumulando começam a prejudicar gravemente a possibilidade de se estabelecer como titular no meio-campo e referência no primeiro momento de construção de jogo. Aqui surge a oportunidade para André Santos, um jogador em franco crescimento. Não sendo prodigioso, o jovem leão pode oferecer no curto prazo uma opção credível ao seu treinador para o centro do terreno uma vez que é um jogador muito completo e combativo. Com o tempo e com dedicação poderá tornar-se um grande médio-centro da Liga portuguesa.

Na defesa Carriço é o principal pilar e ainda nem perto do seu potencial está a jogar. Aliás, a permanência de Carriço numa equipa tão moribunda tem contribuído para que o seu desenvolvimento não tenha sido ainda mais potenciado. Fazia falta um grande central ao seu lado, um Polga de há uns anos atrás, forte psicologicamente e no campo para dar espaço para a juventude de Carriço florir, seja em grandes jogos, seja em erros de critério próprios do desenvolvimento de um jovem jogador. Este são os pilares mais fortes do Sporting actual, mas existem outros jogadores que na dinâmica adequada podem render muito ao reino do leão: João Pereira, Vukcevic, Salomão, Saleiro, Zapater, Evaldo ou Nuno André Coelho. Cabe ao próximo treinador estudar bem as oportunidades e as forças do actual plantel antes sequer de se pensar em destruir e começar tudo do zero. O Sporting tem valores individuais muito, mas muito acima do zero.