sábado, 14 de maio de 2011

2010/2011: Balanço de uma época

Costuma-se afirmar metaforicamente que um campeonato é uma corrida de fundo e não um mero sprint de 100 metros. No entanto, no futebol existe uma certa tendência para valorizar o sprint final e esquecer um pouco o resto da corrida. Imagine-se uma maratona olímpica, neste momento estamos dentro do estádio em que o vencedor entra sozinho e é ovacionado pela multidão expectante. O Porto é esse vencedor, numa corrida em que era considerado o segundo favorito à vitória, mas que acabou por liderar do princípio ao fim aumentando progressivamente a vantagem para o segundo classificado. Esse segundo classificado, o Benfica, partia como favorito, mas desde cedo não teve resposta para o ritmo do Porto. Houve, no meio do percurso, um forcing do Benfica, a fazer lembrar a prestação da época anterior com um ciclo de vitórias espectacular. Mas o líder não claudicou e igualou um record que só o Benfica de tempos distantes havia conseguido, acabando o campeonato sem uma única derrota.

Apesar de tudo, o sentimento generalizado é de que o Benfica teve uma péssima época, com fracassos em toda a linha. Isto é verdade se pensarmos no sprint final e não na corrida toda. A realidade é, porém, muito diferente de um rotundo fracasso. É certo que não conseguiu revalidar o título nacional, mas o Benfica nestas duas temporadas veio recuperar um lugar que perdera para o Sporting desde 2005. Foram 4 épocas em que os encarnados ficaram sempre atrás do rival de Alvalade. Com Jorge Jesus o Benfica recuperou o título de campeão logo na primeira época e perdeu-o na presente para um Porto de outra galáxia. A sua continuidade no banco do Benfica é garante de organização táctica da equipa e princípios de jogo bem vincados e capacidade de suportar uma ambição realista de reconquista do campeonato face a um Porto muito forte.

O Sporting, por seu turno, foi capaz de passar por cima do sprínter Braga, que graças um fim de época empolgante, principalmente pela prestação na Liga Europa, parecer ser a segunda força do campeonato, quando na realidade continua longe disso. Com 46 pontos, o Braga foi muito inferior ao da época anterior em que fez 71 pontos. São menos 25 pontos, ao passo que o Benfica fez menos 13 pontos do que na época passada. No entanto, o sentimento actual é de que Domingos fez uma época brilhante, deixando muitas saudades em Braga, ao passo que Jesus tem o lugar em risco e caminhará sobre brasas na próxima temporada. É óbvio que o brilharete na Liga Europa empolou a fleuma em torno do Braga, mas acabou por ser uma meia-final disputadíssima frente ao Benfica, decidida apenas na diferença de golos marcados fora de casa. Assim, Domingos levará na bagagem para Alvalade (a sua mudança parece garantidíssima face às declarações de elementos do Sporting e do Braga após o jogo de hoje) um currículo de sucesso, quando acabou por fazer um campeonato miserável face ao que fez na sua época de estreia em Braga. Por outro lado, leva uma época europeia de sonho, face a uma época europeia desastrosa na época anterior. Será Domingos capaz de tornar o Sporting competitivo na frente nacional e na frente europeia ao mesmo tempo? Se conseguir pelo menos numa delas já não será mau para um clube em estado de hibernação desde o adeus de Paulo Bento. 

No final, nesta temporada o Sporting não piorou nem melhorou face à anterior, mantendo um total de 48 pontos no final do campeonato. Se atentarmos à conjuntura actual até parece que esta época foi muito pior do que anterior, quando na realidade foi igualmente má. Inverter este ciclo perigoso é urgente para o Sporting presidido por Godinho Lopes, sob pena de entrar num processo semelhante ao que Benfica andou entre 2005 e 2009, só levantado sob a batuta de Jorge Jesus. Em suma, e pensando na metáfora do atletismo, o Porto percorre o estádio e vence em grande estilo igualando o record de sempre de invencibilidade. O Benfica chega atrás isolado, bem depois do Porto e bem longe do Sporting, mas deprimido pela forma como piorou desde a maratona anterior. O Sporting ultrapassa o Braga na última curva e pensa como será possível aguentar no próximo ano a passada do Porto. O Braga que tão bem correu nos últimos quilómetros da maratona, ao passar a meta só pensa que terá de fazer um sprint de sonho daqui a uns dias contra o Porto que já anda há 15 minutos a passear com a bandeira às costas pelo estádio…

Abrem-se agora a hostilidades para a preparação da próxima maratona, com saídas e entradas e o circo habitual do defeso. Será que alguém terá resposta para este Porto? Cá estaremos para analisar os próximos desenvolvimentos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Culturas de vitória

O resultado do clássico de ontem, para além de nos ter trazido oficialmente o novo campeão, veio comprovar novamente a força da mentalidade e do futebol do Porto. Uma força que não é de hoje nem de ontem, mas que surgiu em meados da década de 80. Na história do nosso futebol existem três ciclos hegemónicos bem vincados, cada um para um dos três grandes. O primeiro pertence ao Sporting que em 12 épocas conquistou 8 títulos nacionais, incluindo um tri-campeonato e um tetra-campeonato, num período compreendido entre 1947 e 1958. Foi nesta era que se viram jogar os míticos 5 violinos – Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e José Travassos – que iniciaram este percurso de glória leonino. O Sporting tornou-se, assim, um grande do futebol português.

O segundo período hegemónico foi o que tornou o Benfica no clube com mais títulos de campeão nacional da história do futebol português. Iniciou-se em 1960 e prolongou-se até 1977 em 18 épocas futebolísticas traduzidas em 14 títulos para os encarnados, somando 4 tri-campeonatos neste período. Vivia-se o reinado do maior futebolista português de todos os tempos – Eusébio da Silva Ferreira. Não é de admirar que hoje exista uma estátua em sua homenagem à porta do estádio da Luz. De 1978 a 1984 viveu-se o período de maior equilíbrio entre os três grandes do nosso futebol, com o Benfica a somar 3 títulos e Sporting e Porto 2 cada um.

O terceiro período hegemónico do futebol português iniciou-se em 1985 e prolonga-se até ao presente. Em 26 anos o Porto conquistou 18 títulos nacionais dos 25 que possui no seu historial. O título conquistado ontem demonstra que o grande campeonato da época passada do Benfica poderá ser apenas um episódio esporádico desta hegemonia que parece ser inquebrável. Existe na mentalidade portista um espírito de missão, que não acaba a cada título conquistado, cuja meta final é ultrapassar o Benfica no número total de títulos nacionais. Ainda faltam 7, mas a este ritmo até 2025 o Porto irá ultrapassar o Benfica e provar que a herança de Eusébio e companheiros foi malbaratada por anos sucessivos de gestão danosa por parte dos encarnados, acabando com o último argumento de superioridade dos benfiquistas face aos portistas.

No entanto, esta época ainda está longe de terminar e os velhos rivais ainda terão um novo confronto no mesmo palco de ontem. Desta vez, o Porto terá de recuperar de uma desvantagem de dois golos, e apesar de galvanizado pela vitória de ontem, não será fácil vergar o orgulho ferido dos jogadores do Benfica capazes de bem melhor do que o demonstrado ontem. Com Airton no lugar do lesionado Maxi Pereira, com Cardozo em gestão de esforço e com Roberto a teimar na mediocridade, o Benfica teve poucos argumentos para fazer face ao rigor portista. Os argentinos do Benfica falam línguas bem diferentes no que ao futebol diz respeito. Aimar e Saviola jogam com poesia nas botas, Salvio, Gaitan e Jara jogam tudo na velocidade vertiginosa, ofuscando os magos ancestrais e o seu futebol de toque, para uma incessante loucura de dribles. O Porto foi mais fiel a si mesmo e apostou novamente no aproveitamento da subida dos laterais encarnados, principalmente Coentrão, fazendo Hulk descair nesse espaço para abrir linhas para desmarcações de Falcao, tal como verificado no lance que originou o penálti para o segundo golo azul e branco. Moutinho dá uma qualidade inequívoca ao já rico meio-campo portista e, olhando para o lote das 8 equipas que ainda estão na Liga Europa, só uma grande quebra portista impedirá que novas páginas de glória europeia se escrevam na história portista. O céu é o limite e estes homens de Villas-Boas parecem querer beber a glória do mundo todo de um trago.

sábado, 2 de abril de 2011

Um clássico para o título

A conjuntura seria mais perfeita se este jogo fosse de título para ambas as equipas, no entanto, o título está mais do que do lado dos portistas, restando saber quando e onde é que os comandados de André Villas-Boas vão fazer a festa. O estádio da Luz é o primeiro local onde uma vitória portista poderá levar às ruas do Porto milhares de adeptos em celebração pela reconquista do título, no entanto, do outro lado vão encontrar o único adversário português à altura do futebol do Porto. Jorge Jesus promete jogar com um Benfica de ataque, distinto daquele que conseguiu vencer no Dragão para a Taça de Portugal. Se nos lembrarmos desse último clássico entre dragões e águias, recordamos um Porto sem ideias e com futebol previsível, frente a um Benfica concentrado e muito bem posicionado em todo o relvado. Um jogo sem falhas da parte dos ainda campeões nacionais, exceptuado a expulsão de Fábio Coentrão.

Para o jogo de amanhã o factor casa poderá levar o Benfica a adoptar uma postura mais dominadora no encontro, ou pelo menos, tentar dominar. Do outro lado, o Porto em franco crescendo de forma, terá como primeira tarefa entrar no jogo concentrado e abstraído do circo que se montou em torno deste jogo, uma vergonha para o futebol português. A violência não passa ao lado dos jogadores, sendo que na primeira volta do campeonato o Benfica foi extremamente ameaçado por actos de violência de fanáticos adversários que, em certa parte, explicam o desvario que foi plasmado no relvado, com um 5-0 final histórico. Nestes dias que antecederam o clássico de amanhã, dirigentes encarnados e portistas voltaram a abrir a ferida da violência, cabendo-nos apenas esperar que nada de grave aconteça amanhã e que a rivalidade se cinja ao jogo de futebol.

Para Villas-Boas surge uma boa dor de cabeça para este jogo, face ao futebol que Guarín tem demonstrado nos últimos tempos. A sua colocação em campo em detrimento de Bellushi no onze inicial não será descabida, no entanto, um Benfica mais ofensivo poderia abrir mais espaços na retaguarda que poderiam ser aproveitados com a superior leitura de jogo do argentino. Sem dúvida que problemas destes todos os treinadores desejam. Jorge Jesus terá de saber gerir bem o momento dos seus jogadores. Tal como referimos anteriormente, o Benfica apresenta-se numa trajectória descendente após o apogeu de 18 vitórias consecutivas em todas as competições. Será que amanhã Jesus terá os jogadores do Benfica que jogaram em Paços de Ferreira, ou os que receberam o PSG na Luz? Apesar de ambos os jogos o Benfica ter vencido, é evidente que uma exibição frente ao Porto igual à que vergou os franceses por 2-1 será insuficiente para travar a festa portista, tal a qualidade do conjunto azul. A nossa aposta vai para uma vitória do Porto, uma vez que é a única equipa que corre face a um objectivo concreto, a um título, a uma vingança ante um rival que na época anterior sentenciou o insucesso do Porto no estádio da Luz, com a polémica suspensão de Hulk e Sapunaru. Ao Benfica resta-lhe defender a sua honra e não permitir a festa dos seus adversários em plena casa da águia, retribuindo ao Porto a receita aplicada pelos dragões na época passada que não permitiram a festa do Benfica no Dragão. Assim, a melhor qualidade do futebol do Porto face ao do Benfica (também muito bom, diga-se) aliada ao sentimento de conquista, serão as bases para o triunfo portista de amanhã. Ou será que os jogadores do Benfica terão um último grito de campeões?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Primeiro olhar: Bruno César

Chegou hoje a Lisboa um dos reforços para o Benfica 2011/12, o brasileiro Bruno César de 22 anos oriundo do Corinthians. O que é de esperar deste jogador? Em primeiro lugar não se pense que com Bruno César o Benfica adquirirá, pela sua juventude, mais velocidade na posição de “número 10”. Bruno César é lento a correr e driblar, no entanto é rápido na decisão, isto no campeonato brasileiro em que o ritmo é bem mais pausado. O seu principal desafio será adaptar-se a uma realidade que lhe exigirá mais velocidade a soltar a bola e, consequentemente, a prever a jogada que irá acontecer. Não é, por conseguinte, um jogador atlético, apesar de ser corpulento. É canhoto e tem muita técnica no controlo de bola e no passe, longo ou curto. Para a nossa realidade mais próxima, digamos que estamos perante um jogador parecido com Miguel Veloso apesar de jogar numa zona mais avançada do terreno. As parecenças residem na técnica de posse e de passe da bola, na mais-valia que constitui nos lances de bola parada, em que o Benfica ganha um jogador capaz de marcar cantos ou livres junto às laterais para a área com muito perigo. O pé direito é pouquíssimo utilizado e mesmo nos passes longos que pedem um pé direito, o jogador opta por batê-los de trivela, com grande qualidade técnica, diga-se. Em suma, é um jogador que não se prende à bola e é capaz de a endossar com qualidade para os colegas. A sua capacidade de se integrar no jogo europeu, bem mais rápido e frenético que o brasileiro, será a chave para o seu sucesso no Benfica e nesse aspecto Jesus terá um papel fulcral. Por outro lado, a capacidade que Bruno César demonstra ao privilegiar o passe vertical para o avançado, dando-lhe imediatamente apoio noutra posição desmarcando-se, denota que é um jogador inteligente e que não se limita a fazer passes a rasgar aguardando estático que alguém resolva o resto da jogada. Este dinamismo combinado com a qualidade de Saviola no jogo entre linhas e com os frenéticos Gaitán e Fábio Coentrão a romper na ala esquerda podem causar mossa nas equipas adversárias. Pela quantia que é avançada pela comunicação social (entre 7 e 8 milhões de euros) o Benfica parece estar a dar um passo certo para o futuro, visto que Aimar caminha para o crepúsculo da carreira e Martins teima em não evoluir o suficiente para dar garantias de qualidade na posição do astro argentino.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pilares

Vivem-se momentos decisivos para o futebol leonino. Nos próximos dias ir-se-á escolher um novo caminho para o Sporting. Desta feita a pluralidade de ideias manifestou-se e os sócios terão oportunidade de optar por uma das diferentes soluções apresentadas. Foi, sem dúvida, um claro sinal de vitalidade de um clube que parecia moribundo e que encontra neste novo período uma possibilidade de recuperar e soltar-se do que o prende contra a parede. Se este novo fôlego e resiliência manifestada a nível directivo é de saudar, a nível desportivo, no que ao futebol diz respeito, é importante perceber o que é que resta e quais são os pilares nos quais se deve construir o futuro próximo do Sporting. As propostas eleitorais a nível técnico incidem numa aposta clara pela escola holandesa, caracterizada pelo futebol ofensivo e tecnicista, alicerçado numa estrutura que promove a formação de jogadores. É, sem sombra de dúvidas, uma filosofia que está no ADN do Sporting Clube Portugal desde sempre. Esta concomitância ideológica poderá trazer grandes benefícios para Sporting, quer a curto, quer a médio-longo prazo. Se a ideologia permitirá construir um futuro promissor e adequado à história do clube a longo prazo, a urgência do futuro próximo pede competência mais do que ideológica a um treinador. Exige-lhe grande competência na construção táctica da equipa, tão fustigada esta temporada. Esta descaracterização na arquitectura táctica que a era Paulo Sérgio trouxe fez crescer um enorme ponto de interrogação no valor dos actuais jogadores e na capacidade destes contribuírem para o futuro do amanhã.

Desta forma, debrucemo-nos no tema principal deste post: quais são os jogadores pilares do actual futebol do Sporting? Sobre que núcleo de jogadores se deve construir? A saída de Liedson constituiu o derrube de um desses eventuais pilares, uma vez que o seu estilo de jogo influenciava em grande medida a dinâmica ofensiva da equipa, ou seja, poucos apoios frontais para os médios, detrimento do passe vertical pelo centro do terreno e primazia pela verticalidade nos flancos, potenciando o oportunismo de Liedson e desorganização defensiva das outras equipas. Foi assim que Liedson coleccionou golos nos últimos anos e conquistou o coração dos adeptos do Sporting, sendo de longe o jogador mais influente do Sporting a nível ofensivo. O presente, no entanto, não contempla Liedson, e o actual ponta-de-lança titular do Sporting é Hélder Postiga. Vale a pena construir sobre Postiga? Claro que sim. A ineficácia do avançado português é desesperante e o número de lances que cria é incompatível com a quantidade de golos que tem. Postiga carece de mais concentração no momento de finalizar, porque leitura e vontade de marcar tem de sobra. No entanto, o jogo de Postiga abre espaço para o surgimento de um colega avançado que saiba ler o jogo com inteligência e aproveitar as oportunidades que Postiga oferece como segundo avançado. Não será necessário um “pinheiro” que se limite a encostar para o fundo da rede, mas um bom finalizador que aproveite lendo o jogo que o avançado português cria, aproveitando o espaço e ajudando Postiga no apoio vertical aos médios, sem destruir esse futebol envolvente que Liedson nunca soube interpretar.


No meio-campo um dos pilares é Jaime Valdés, de longe o melhor médio do Sporting. A sua capacidade táctica e técnica, aliada a larga experiência competitiva oferecem ao Sporting garantias para o presente e para as próximas épocas, uma vez que é capaz de se tornar no líder de balneário que tanto carece a equipa leonina. Saber aproveitar Valdés para ser mais do que um mero jogador a prazo e torná-lo numa referência para as gerações vindouras poderá ser o segredo para promover o fim da mediocridade a nível de jovens médios ofensivos do futebol português. Por seu turno, André Santos e Pedro Mendes são duas peças que, por razões diferentes, muito podem fazer pelo Sporting. Pedro Mendes é um jogador cujas capacidades atléticas começam a fazer a diferença pela negativa no seu futebol, que nunca foi físico. As lesões que vem acumulando começam a prejudicar gravemente a possibilidade de se estabelecer como titular no meio-campo e referência no primeiro momento de construção de jogo. Aqui surge a oportunidade para André Santos, um jogador em franco crescimento. Não sendo prodigioso, o jovem leão pode oferecer no curto prazo uma opção credível ao seu treinador para o centro do terreno uma vez que é um jogador muito completo e combativo. Com o tempo e com dedicação poderá tornar-se um grande médio-centro da Liga portuguesa.

Na defesa Carriço é o principal pilar e ainda nem perto do seu potencial está a jogar. Aliás, a permanência de Carriço numa equipa tão moribunda tem contribuído para que o seu desenvolvimento não tenha sido ainda mais potenciado. Fazia falta um grande central ao seu lado, um Polga de há uns anos atrás, forte psicologicamente e no campo para dar espaço para a juventude de Carriço florir, seja em grandes jogos, seja em erros de critério próprios do desenvolvimento de um jovem jogador. Este são os pilares mais fortes do Sporting actual, mas existem outros jogadores que na dinâmica adequada podem render muito ao reino do leão: João Pereira, Vukcevic, Salomão, Saleiro, Zapater, Evaldo ou Nuno André Coelho. Cabe ao próximo treinador estudar bem as oportunidades e as forças do actual plantel antes sequer de se pensar em destruir e começar tudo do zero. O Sporting tem valores individuais muito, mas muito acima do zero.

quarta-feira, 16 de março de 2011

As escolhas de André

Pegando num tema levantado este fim-de-semana relacionado com a utilização de uma segunda linha de jogadores por parte do Benfica, vamos abordar o tema mas na perspectiva do Porto. André Villas-Boas tem utilizado a rotação de plantel de forma mais frequente e assertiva do que Jorge Jesus, tendo mesmo revelado alguns jogadores que jaziam na penumbra do futebol português. O primeiro caso que abordaremos é o de James Rodríguez. Contratado no Verão de 2010, este avançado/extremo colombiano manteve-se uma incógnita durante meio campeonato, sendo que se levantavam algumas questões acerca da sua contratação, tal a dicotomia entre o seu preço e a inexistente utilização em competição. No entanto, o jovem jogador passou por um período de incubação na primeira metade da temporada para depois surgir fulgurante numa altura em que o Porto precisava de alternativas no ataque, nomeadamente face às lesões consecutivas de Varela e quebra de rendimento subjacente. Contrariamente ao preconizado pela imprensa, James não é um jogador do tipo de Di Maria, que faz do um para um a sua principal arma. James é um jogador muito mais orientado para o colectivo e com uma leitura do jogo bem mais interessante do que Di Maria (um driblador incrível). Ainda teenager, o colombiano trouxe uma nova dimensão aos extremos do ataque do Porto, oferecendo um jogo mais envolvente e menos vertical do que Hulk e Varela. Ficou-nos na retina a exibição deslumbrante frente ao Nacional para o campeonato no Dragão como um dos momentos altos de azul. Por outro lado, no jogo contra o bem organizado Benfica claudicou e mostrou dificuldades em resolver problemas mais complexos do que os apresentados pelas equipas mais pequenas da Liga. Sem dúvida que o Porto contratou um jogador muito promissor e com um estilo de jogo que lhe augura uma margem de progressão enorme. É e será durante muito tempo uma cada vez maior mais-valia para André Villas-Boas.

A segunda opção alternativa ao onze inicial do Porto que pretendemos salientar é também proveniente da Colombia – Guarín. O poderoso médio centro mostrou nos primeiros tempos em Portugal uma inconsistência e uma imaturidade táctica pouco consentâneas com as exigências de um clube grande, e face à concorrência interna do plantel do Porto, poucas oportunidades veria até esta temporada. Com Villas-Boas o jogador colombiano cresceu de uma forma incrível nestes aspectos que pecava no passado e para além disso, oferece uma polivalência importantíssima para os planos do seu treinador, podendo assumir com facilidade qualquer uma das três posições centrais do meio campo do Porto. Começou por aparecer em grande plano a substituir Fernando como pivot-defensivo, fazendo mesmo questionar a titularidade, até então indiscutível, do Polvo. Mais recentemente começou a aparecer em zonas mais ofensivas assumindo a posição de Bellushi ou de Moutinho, abrindo espaço para que o seu poderio físico e a sua fortíssima meia distância comecem a causar mossa nas defensivas contrárias. Não é um jogador com o requinte e a visão de jogo de Bellushi, nem com a rotação e rigor de Moutinho, no entanto, é uma alternativa de grande qualidade que o treinador do Porto tem à sua disposição, podendo com Guarín colmatar a inconstância de rendimento de Bellushi ou então gerir o desgaste de Moutinho.

Neste núcleo central do Porto surge outra das opções credíveis de André Villas-Boas, o madeirense Rúben Micael. Ao contrário de Guarín, o português conhece uma trajectória descendente relativamente ao seu impacto na equipa, altamente relevante aquando da sua chegada ao Porto na segunda metade da época passada. O verticalismo do futebol de Rúben Micael contrasta demasiado com o tipo de futebol que Villas-Boas está introduzir no Porto, mais baseado na posse de bola e no critério aquando da sua verticalização para zonas de alta densidade de defensores adversários. Não deixa, no entanto, de ser uma opção que Villas-Boas utiliza, nomeadamente quando coloca em campo quatro jogadores de meio campo com características que os afastam das faixas laterais, desenhando um quadrado no meio campo com duas linhas de dois jogadores. O seu futuro no Dragão não está livre de risco, uma vez que as suas características não se encaixam tão bem neste Porto como no de Jesualdo Ferreira.

Outro jogador em destaque na rotação portista é Otamendi, ou será Maicon? De facto, Villas-Boas conseguiu instituir uma rotação extremamente interessante no centro da defesa do Porto, em certa parte proporcionada pela chegada tardia do argentino ao Dragão. Com a dupla Rolando-Maicon o Porto teve um início de temporada extremamente satisfatório, mas a inexperiência de Maicon e alguns erros associados proporcionaram a entrada mais frequente de Otamendi que resultaram em golos, muitos deles decisivos, principalmente na deslocação a Braga, onde o Benfica caiu. No entanto, nem tudo são rosas, e este eixo defensivo do Porto continua a consistir a principal fraqueza deste Porto de Villas-Boas. Há espaço para melhores jogadores para esta posição e nenhum dos actuais é intocável. Uma boa movimentação no mercado de Verão na aquisição de um defesa-central poderá reforçar ainda mais este plantel portista. Nas laterais defensivas existem também boas alternativas aos titulares. Se na direita existe a típica relação lateral-ofensivo (Fucile) por defesa-lateral (Sapunaru), com mais de uma época de experiência. No lado esquerdo temos dois laterais menos defensivos, mas distintos na forma de abordar o jogo. Álvaro Pereira é mais vertical e um autêntico vaivém, baseando o seu futebol na capacidade atlética superior. Emídio Rafael é um jogador muito culto tacticamente e vocacionado para jogar para dentro, mais na lógica de posse defendida pelo seu treinador (a sua contratação à Académica tem claramente o dedo de Villas-Boas). A lesão grave de Emídio Rafael surgiu na fase em que começava a ganhar ascendente no plantel portista e a conquistar os adeptos, no entanto, na próxima época o Porto dificilmente terá necessidade de ir ao mercado buscar um lateral, seja para que ala for.

As restantes opções de Villas-Boas começam a cair um pouco para fora do baralho e para fora do Dragão. Souza e Walter que pareciam ter conquistado algum espaço começaram a desaparecer quer por motivos de falta de rendimento (Souza), quer por falta de profissionalismo (Souza e Walter) o que lhes escancara a porta da saída no Verão. Cristian Rodríguez é extremamente inconstante, ora aparecendo como opção credível, até para o onze inicial, ora jogando ao pior nível, sendo uma espécie de caso Vukcevic à moda do Porto. O seu salário brutal empurra-o cada vez mais para a saída e a chegada da promessa Iturbe é mais do que um convite ao adeus. Sereno e Mariano são cartas fora do baralho por motivos diferentes, o primeiro revelou o “síndrome Luís Filipe” de inadaptação a grande, estando irreconhecível do jogador que vimos em Guimarães. Mariano, por seu turno, tem uma grande atitude como profissional que lhe mereceu a braçadeira de capitão no passado, mas as poucas oportunidades dadas por Villas-Boas revelam que não é intensão do técnico português contar com ele, pelo que o seu adeus é uma inevitabilidade e não trará impacto ao rendimento da equipa. Mantendo Falcao, Moutinho, Hulk e Fernando o Porto terá montado o mesmo esqueleto que lhe trouxe grande sucesso esta temporada, e com estas opções alternativas, a concorrência terá de se mexer muito bem para tirar o Porto da posição de favorito para campeão 2011/12.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Em queda livre

Terminado o sonho de revalidar o título nacional, a equipa do Benfica começa a demonstrar preocupantes sinais de quebra de rendimento. Os últimos jogos, incluindo a vitória na Luz frente ao Paris Saint-Germain, não deixam antever um futuro próximo risonho para os encarnados. Para os que pensavam que com o título irremediavelmente perdido para o Porto os homens da Luz estariam mais preparados para apontar a outros objectivos, a palidez da performance recente da equipa de Jesus promete uma dificílima deslocação a Paris e um enorme ponto de interrogação na capacidade de resposta da equipa para enfrentar o Porto em dois jogos na Luz. Depois de ter atingido o pico de forma esta temporada, avizinha-se uma queda acentuada do Benfica, que poderá mesmo ter como único objectivo credível a Taça da Liga frente ao sedutor Paços de Ferreira. Não seria a primeira vez que o gigante encarnado se veria surpreender numa eliminatória aparentemente ganha para a Taça de Portugal, face a um Porto de novo em crescendo. Jorge Jesus bem tenta puxar pela moral dos jogadores, mas face ao fraquíssimo Portimonense e a jogar em casa, teve de ser Nuno Gomes na confusão a fazer o empate. Tudo o resto demonstram preocupantes erros de casting na construção do plantel. Atacar a Liga Europa exigiria um plantel bem mais rico do que o do Benfica, incapaz de colmatar a desinspiração de Gaitán ou Salvio, uma vez que Saviola mantém-se afastado do seu nível de topo há muito tempo. No meio da tempestade sobra Jara que à força e com pouca cabeça vai tentando puxar o Benfica para cima. Dizem que é cansaço acumulado, mas parece mais o Benfica do início de época a regressar do que outra coisa qualquer. O alarme toca na Luz, veremos se alguém o ouve ou se continuam a assobiar para o Porto com guerrinhas que nada de bom trazem para o futebol português.