Ventos de tempestade assolam as hostes leoninas nesta temporada de 2010/11. Se aquando da sua chegada José Eduardo Bettencourt incrementou o espírito ecléctico, berço de talento e de fair play no futebol português, o tempo encarregou-se de esbater essa imagem, enegrecida por um desempenho desportivo francamente desapontante para o secular clube de Alvalade. Entre o fim do projecto com Paulo Bento e a dança constante de treinadores, salvaram-se poucas referências na equipa, proliferando casos e problemas de balneário que se estamparam no jogo leonino, sem a chama nem o perfume único dos leões. Pelo meio dos erros de casting e saídas de jogadores nucleares, sobejam jogadores de grande valor, que merecem ser tidos em conta, muito mais agora que é necessário sangue novo e determinação para devolver o Sporting ao seu lugar de pertença, ombro a ombro com os rivais Benfica e Porto. Criticar e apontar os erros da má gestão leonina não é um exercício complexo, desde problemas financeiros, directivos, homens errados para os postos errados, de tudo um pouco se passou no Sporting e as saídas dos seus jogadores mais carismáticos marcam um corte radical com o passado recente do clube, o único clube português para além do Porto de Mourinho a figurar numa final europeia neste novo século. O talento nascido no berço do leão passeia-se agora com outros uniformes vestidos, quer em clubes nacionais, quer internacionais, deixando de coração dividido os adeptos sportinguistas, fieis ao clube e, ao mesmo tempo, magoados com as saídas dos seus ídolos. A crise do Sporting vai para além do plano desportivo, é uma crise de identidade, com figurinos desconexos da história do clube a entrarem como reforços. Paulo Sérgio é o homem do leme de um barco que todos parecem querer fugir e a política de contratações deste mercado invernoso não traz perspectiva de bonança da tempestade leonina. Resta ir buscar ao valor dos jogadores a coragem de levantar o clube de baixo para cima, do relvado até às elites com os poucos valores que sobejaram e com a classe chilena que empresta a Portugal um pouco de talento, quando no seu mais fértil berço a tempestade afoga os pequenos leões antes do seu futebol poder emergir.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Porto de antologia
Pegue no vídeo da primeira parte do jogo Porto-Nacional de 26 de Janeiro de 2011 e reveja-o sempre que sentir saudades de futebol de classe, rendilhado por passes de primeira à flor do relvado, passes por cima dos defesas, desmarcações de todos os jogadores, sempre num futebol apoiado com recepções orientadas de fazer crescer água na boca e, evidentemente, golos para rever vezes sem conta. André Villas-Boas chegou ao FC Porto camuflado de treinador jovem e inexperiente. Desenganemo-nos, Villas-Boas tem já um currículo invejável por qualquer técnico do futebol mundial, recheado de títulos, em grandes clubes europeus e sempre muito bem acompanhado. A sua chegada a técnico principal seria uma questão de tempo e, tal como pautou a sua carreira até hoje, essa estreia foi precoce e auspiciosa, colocando a Académica de Coimbra a jogar um futebol de posse de bola e domínio de jogo, muito pouco ortodoxo para o estilo de jogo tradicional das equipas mais modestas do nosso campeonato. Chegado a um grande, após o fracasso nas negociações com o Sporting, Villas-Boas transformou um Porto marcado por épocas consecutivas de futebol baseado em transições rápidas, para um estilo mais contemporâneo e orientado para a filosofia de jogo muito em voga para os lados da Catalunha, com constante controlo da bola e construção de jogo focalizada no centro do terreno. Seja colocando os extremos com os pés “trocados”, seja avançando o pivot defensivo do meio campo para funções mais ofensivas que não apenas a recuperação de bola e passe para o lado, o espaço interior é sempre privilegiado. Um futebol de tão boa qualidade e com tão bons princípios de jogo, aliado a um plantel de jogadores com mais qualidade que a maioria dos plantéis da Liga, deslumbra e cria índices de confiança tão elevados que não será descabido aspirar a voos mais altos na Europa do futebol. Será muito difícil para a concorrência desalojar uma equipa destas do primeiro lugar da Liga. Por maior que seja a sequência de vitórias dos adversários, o Porto parece estar sempre dois passos à frente, e Villas-Boas comanda rumo a um horizonte dourado para os dragões.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
O fantástico Fábio Coentrão
Pode parecer contraditório, mas o melhor lateral-esquerdo da Liga portuguesa joga de Dragão ao peito e chama-se Álvaro Pereira. No entanto, Fábio Coentrão é melhor jogador que Palito. Ou seja, neste momento é redutor afirmar que Fábio Coentrão é um lateral-esquerdo, porque ele é muito mais do que isso. Podemos dizer que o seu futebol começa da posição de lateral-esquerdo e prolonga-se por todo o campo, redundando no momento defensivo na posição de partida, sempre com o apoio próximo de Gaitán (muito mais disciplinado tacticamente do que no início da temporada). No entanto, o expoente máximo do seu futebol é no ataque, com dribles, tabelas, passes milimétricos, recepções de bola magnéticas e muita magia a sair das botas coloridas. Ver um jogo de Fábio Coentrão é uma maravilha para qualquer amante do futebol tecnicista tradicional do jogador português, com finta curta, orientado para o colectivo, num estilo de dominância ofensiva, sem poder choque, mas cheio de requinte.
Encaixá-lo em campo na posição de lateral-esquerdo foi a melhor opção para Jorge Jesus, num Benfica que se quer dominador em praticamente todos os jogos do campeonato, pese embora que parte do seu talento ofensivo perde intensidade com o correr dos minutos e o acumular de cavalgadas desde a defensiva até à área adversária. Num campeonato mais competitivo talvez não fosse descabida a ideia de recuperar Coentrão para terrenos mais próximos da linha de meio campo, encaixando no protótipo perfeito de médio-esquerdo europeu, fortíssimo do ponto de vista técnico e voluntarioso para o trabalho de equipa, seja este de dinâmica ofensiva ou defensiva. Esta sua característica de jogador voltado para o colectivo pode ser uma importante mais-valia para equipas que beneficiem o jogo interior em detrimento do futebol arrastado pelo corredor lateral, por isso a aposta como médio-esquerdo talvez fosse mais proveitosa do que lança-lo como extremo-esquerdo, demasiado exposto ao choque físico com o defesa adversário sem vir embalado em velocidade.
Fábio Coentrão é o mais emergente talento do futebol português da actualidade e o conforto com que a bola se cola nas suas botas mesmo a grande velocidade encanta-nos de cada vez que o vemos jogar futebol. A sua manutenção em Portugal será muito curta, cabendo-nos aproveitar enquanto podemos a magia do seu futebol nos nossos economicamente modestos relvados.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Um furacão à espera de acontecer
Simon Vukcevic é talento e fúria, força e impotência, raiva e indiferença. Completamente desacreditado no período decadente da era Paulo Bento em Alvalade foi também o jogador mais influente no apogeu do agora seleccionador nacional. Começou a ser colocado à esquerda do ataque leonino, mas progressivamente foi transportando a intensidade do seu jogo para zonas mais interiores, fixando-se como segundo avançado na sua melhor fase de leão ao peito. Nesta posição foi o expoente máximo do Sporting nos últimos 4 anos, entregando-se a cada jogo como um guerreiro no campo de batalha, nunca dando nenhuma bola por perdida, irrompendo como um furacão pelas linhas defensivas adversárias, sempre com classe e técnica superiores. Foi esta sua abnegação que levou ao fim progressivo daquele que se acreditava como sendo o novo alento do Leão, caindo agarrado ao ombro depois de uma tentativa acrobática de impedir que a bola saísse pela linha lateral. Nunca mais Vukcevic entrou em paz consigo, com o clube, com todos… Encostado no banco viu o Sporting debater-se jogos atrás de jogos sem que o seu talento fosse colocado em campo para fazer face à tempestade. Com Paulo Sérgio seguiu com guia de marcha para fora de Alvalade, mas algo o fez voltar para trás, ainda mais desacreditado do que antes. Paulatinamente foi ganhando minutos nas pernas, mas não se estabeleceu ainda como titular num Sporting ensombrado e perdido no seu rumo histórico de glória. Paulo Sérgio é um defensor acérrimo dos seus jogadores, mas não se coibiu de apontar o dedo a Vukcevic depois de o ter lançado frente ao Porto, onde tentou debater-se sozinho com os Dragões numa luta desigual. O montenegrino respondeu e recusou o rótulo de bode expiatório de um treinador que chegou cedo demais a um grande, que não sabe enquadrar tacticamente uma equipa para dar espaço aos seus criativos, aos seus talentos… Vukcevic permanece em estado latente, à espera que algo aconteça, que alguém aproveite o seu valor e devolva a alegria ao seu futebol. Até lá Vukcevic debate-se consigo, com os adversários, com os colegas, com o treinador, com os adeptos, com a imprensa, com o mundo…
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O profeta da táctica
Na última década o futebol português ficou marcado indelevelmente pelo surgimento do melhor técnico do mundo, José Mourinho. A sua presença no futebol português foi rápida, marcante e paradigmática. Seguiu-se um rol de nomes que seriam o novo Mourinho, mas todos falharam nesse objectivo. O próximo grande treinador português já cá estava antes de Mourinho chegar e por cá mantém-se – Jesus. Até quando? Essa será a grande questão. Contrariamente a Mourinho, Jorge Jesus começou a sua carreira como técnico principal bem do fundo do futebol português, onde foi traçando um percurso cheio de experiências, vitórias e derrotas. O seu discurso sempre seguro, contrastava com alguns dos resultados das equipas que treinou, talvez limitadas pela ausência de génio nos seus jogadores, talvez porque para tudo existe um tempo, e esse tempo finalmente chegou. Os sinais foram surgindo progressivamente, não eram inocentes as análises que consideravam as suas equipas as mais rigorosas tacticamente da Liga. Em Belém devolveu o sonho de grandeza ao Belenenses, chegando mesmo ao horizonte europeu, numa equipa orquestrada pelo talento dos lusos Silas, Zé Pedro e o jovem Rúben Amorim. Seguiu-se um projecto mais ambicioso, no Braga de Salvador, onde alcançou mais um sucesso, catapultando-o para um patamar superior, destino há muito reservado para Jesus. As circunstâncias levaram-no a assinar com o Benfica, numa altura em que o poderoso Porto se encontrava num período de hegemonia que blindava Jesualdo pelo menos por mais uma época no Dragão, ao passo que em Alvalade Paulo Bento mantinha-se no projecto de criar um Sporting estável e ganhador no longo prazo. Entrou desconcertante na Luz, contrastando de imediato com Quique Flores, um autêntico diplomata vindo de Espanha para dar um bom exemplo de desportivismo, mas a anos-luz da sabedoria táctica de Jesus. Viu-se o melhor Benfica dos últimos 15 anos, com goleadas, espectáculo e emoção até à derradeira jornada do campeonato, em que se sagrou campeão perante uma Luz de corações ao alto. Manter a excelência é, por vezes, mais difícil do que alcança-la num momento fugaz. Era esse o desafio de Jesus para 2010/11. A ressaca do seu primeiro título nacional foi dura, tendo a equipa do Benfica entrado numa luta consigo mesma, na sombra da gloriosa época anterior. A evolução do Porto com Villas-Boas colocou ainda mais problemas a Jesus, principalmente para agarrar a sua equipa a nível motivacional. Depois desta luta interior, o Benfica parece ter finalmente esquecido o fantasma da época anterior e constrói uma nova história praticando um futebol bem mais atractivo e vistoso do que no início da temporada. Jesus construiu um enorme Di Maria e perdeu-o na época seguinte, recebeu dois novos discípulos que hoje pintam os campos de magia – Nico Gaitan e Salvio – bebendo do ensinamentos de Jesus conferindo ao seu jogo rigor táctico e sentido colectivo, construindo jogadores como sempre fez ao longo da sua carreira. Jesus tem mais uma batalha pela frente depois da hercúlea missão de erguer o Benfica de volta para o futebol de grande qualidade, mas desta feita parte com 8 pontos de atraso. Conseguirá vencer?
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
A incrível força da natureza
Geralmente os jogadores com grande envergadura física tendem a ser mais lentos e menos ágeis com a bola nos pés do que os jogadores mais franzinos. Hulk é uma excepção à regra. A velocidade com que, literalmente, explode do flanco para o centro do terreno é impossível para que qualquer defesa esboce uma reacção credível para o travar, o que associado a um pontapé tremendo torna-o um monstro de ataque à solta no campo. O seu maior adversário acaba por ser ele próprio, o que o impede ainda de entrar na elite dos melhores avançados do mundo. É impossível olhar para Hulk e não ver os mesmos lampejos de talento que vemos em Cristiano Ronaldo, mas a sua capacidade de decisão nos lances é demasiadas vezes má. Colecciona valores medonhos a nível das perdas de bola, embora esta temporada o trabalho com André Villas-Boas comece a dar frutos positivos nesta matéria, sendo a arma de ataque mais mortífera da Liga portuguesa. Quanto a golos e golões, Hulk é um regalo para qualquer adepto de futebol espectáculo, parece por vezes que é um jogador a jogar num escalão abaixo do seu, como se fosse um júnior de segundo ano a jogar no meio dos juvenis, tal é a sua superioridade física face aos adversários. São diversos os momentos embaraçosos que Hulk cria nas defensivas adversária, desde o “jogging” humilhante de 70 metros que fez a Rochemback em Alvalade para a Taça de Portugal, até aos duelos desiguais com Laranjeiro para a liga portuguesa. É mais um jogador a prazo em Portugal. Penso que em Inglaterra seria um sucesso, mesmo com o nível actual ainda verde nas tomadas de decisão. Para já quem sofre a fúria do incrível são as defesas das outras equipas portuguesas.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
João Moutinho... perdão, Senhor Moutinho
Começou a sua carreira na equipa principal do Sporting na época 2004/05, então com apenas 18 anos. Tal como todos os talentos que nasceram em Alvalade, cedo se pronunciou um futuro brilhante para o jovem algarvio. Fruto da desertificação de referências no clube, Moutinho carregou o peso da braçadeira de capitão também precocemente, fardo esse demasiado pesado mesmo para toda a sua maturidade e profissionalismo. A instabilidade desportiva do clube levou a que no Verão de 2010 Moutinho saísse em litígio com o clube de Alvalade para o seu rival do norte. No estádio do Dragão Moutinho reencontrou a alegria de jogar e libertou-se do fardo que desde cedo lhe impuseram no Sporting, assumindo-se como um protótipo perfeito do típico jogador à Porto. Com um treinador talentoso e ambicioso, Moutinho encontrou o futebol mais evoluído da sua carreira e explodiu como jogador, já de barba rija e assumindo-se apenas como mais um jogador num colectivo. Sem a obrigação de carregar a equipa às costas João Moutinho rende ainda mais do que no Sporting passando de herói a vilão para os adeptos do Porto. O céu é o limite e esta época conta quase todos os jogos por vitórias, ainda com o passado amargo apelidado de maçã podre algo indispensável para quem sabe que o doce não é tão doce sem se conhecer o amargo.
O próximo melhor central português
Carrega nos ombros as esperanças de milhares de sportinguistas e assume esse peso como algo intrínseco ao seu futebol. Sempre frio, lê o jogo, prevê o que vai acontecer dois passes antes e antecipa-se aos adversários em soupless, como um autêntico bailarino numa posição tradicionalmente entregue aos seguranças da festa do futebol. Se a sua maturidade pasma o mais distraído dos adeptos, a chave do seu jogo é a inteligência com que aborda cada lance, encarando com a mesma abordagem o mais humilde dos avançados da nossa Liga ou Messi. Se no primeiro duelo entre ambos o mago argentino superou Daniel Carriço, o talentoso defesa do Sporting dificilmente deixará o melhor do mundo repetir a proeza, ou não estivéssemos perante um jogador com potencial para se superiorizar ao kaizer Ricardo Carvalho. Observemos com atenção o seu crescimento nos nossos relvados enquanto pudemos porque o seu destino será o admirável mundo das estrelas do futebol.
Amar Aimar e Saviola
É difícil, nos dias de hoje, imaginar um sem o outro. O seu futebol rendilhado e tecnicista, polvilhado de fintas e tabelas, fazem crescer a paixão dos adeptos e transportam-nos para um futebol de outros tempos, sucumbido à força do músculo, hoje vingado em Barcelona por Guardiola. Embora a comparação pareça desmedida, nos dias que correm esta dupla é o que de mais parecido temos na nossa Liga com o futebol celestial dos catalães. Todos os jogos brindam-nos com o perfume do seu talento inconfundível que em 2009/10 tanto contribuíram para um dos títulos mais justos e estilizados dos últimos anos no futebol português. Outrora foram demasiado grandes para caberem na mesma equipa, mas hoje, mais perto do crepúsculo da carreira coabitam no mesmo clube tal como quando nasceram para o futebol, para gaudio dos benfiquistas e amantes do desporto em geral.
A sua compleição física esconde o enorme talento que possuem e confundem-nos a razão permanecendo para sempre aos nossos olhos dois meninos argentinos com a vida inteira pela frente e o mundo do futebol para conquistar. Que o seu exemplo permaneça para sempre no futebol português e motive novos talentos a seguirem-lhes as pisadas, quer na genialidade e inteligência com que encaram o jogo, quer no profissionalismo que emprestam em prol da equipa.
O gato do violão
Hélton é reconhecidamente o melhor guarda-redes da Liga e essa constatação torna-se evidente para quem acompanha com regularidade os jogos da liga portuguesa. As exigências de um guarda-redes de clube grande requerem que a meio de uns prolongados períodos sem ver a bola se intervenha com tremenda eficácia, e seguramente que as oportunidades de emendar um eventual erro não serão muitas. Tendo afastado o melhor guarda-redes português de todos os tempos da titularidade da baliza do Porto, Hélton mostrou desde cedo agilidade e segurança ímpares na liga portuguesa que o catapultaram para a internacionalização na mais elitista selecção do mundo. No escrete teve poucas oportunidades de mostrar o seu valor, fruto da concorrência superior, no entanto o objectivo foi atingido e nos dias de hoje colecciona títulos de dragão ao peito. Apesar do seu ar pachorrento e sempre em paz com o mundo, o seu futebol é adocicado e espicaça permanentemente os adeptos do Porto com dribles em zonas absolutamente proibidas, numa tentativa de animar os solitários jogos que por vezes encontra. A história atesta que o atrevimento de Hélton nunca o deixou ficar mal, no entanto, para os adeptos portistas sedentos de títulos esta sobranceria é sempre incomodativa, só que o gato do violão deixa a concorrência a léguas de distância e demonstra-nos todas as jornadas o que um guarda-redes de um grande deve ser.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Os meninos de ouro
De fato e gravata, o jogador à Benfica é um nobre que desliza pelo relvado, em finta curta, sem sprints desalmados, a explanar toda a sua superioridade, fazendo cair adversários com a sua finta de corpo. O pensamento sobranceiro que anos de glória foram construindo na família benfiquista é personificado no seu jogador tipo, já experiente, com muitos títulos no bolso e ambição algo reduzida, mas classe reconhecida. A única ponta de humildade que o jogador do Benfica demonstra é a sua submissão à grandiosidade do clube, realçando sempre que o clube é incalculavelmente superior ao seu talento.
O jogador típico do Benfica parte para o jogo já com meio golo a favor, o que faz com que a astúcia do adversário o coloque em permanente aflição. No entanto, a sua classe acaba por, quase sempre, vir ao de cima resolvendo os jogos com golos de antologia que fazem crescer o seu já inflamado ego e a paixão dos seus fiéis. Amado pelos seus adeptos, detestado pelos demais, arca com o afamado peso da camisola encarnada e nos dias de hoje vê o Porto cada vez mais perto do seu número de títulos. Mais do que nunca o jogador à Benfica vê-se obrigado a puxar dos galões para fazer face à ameaça vinda do norte que cresce de dia para dia.
Para sempre jovem
Ainda adolescente, o típico jogador leonino tem pouca barba na cara, mas magia a transbordar-lhe pelas botas. O aspecto franzino rapidamente perde relevância devido às suas permanentes deambulações e dribles estonteantes que crescem em direcção à baliza contrária. O nome da mais significativa claque aficionada do Sporting personifica na perfeição o jogador tipo de Alvalade, numa eterna juventude, com todas as suas vantagens e desvantagens. As carreiras do típico jogador leonino tendem a ser curtas em Alvalade, seja pelo seu talento sobredotado, seja pelo seu temperamento imponderado. Se tal facto poderia tender a tornar o clube algo nostálgico, tal não se verifica, uma vez que a renovação de gerações talentosas é uma constante.
Na lista dos melhores jogadores portugueses dos últimos 20 anos são poucos os que não saíram do berço do leão, o que orgulha o clube, mas ao mesmo tempo deixa nos seus adeptos um sentimento de que algo ficou por escrever na história. Ofensivo, o jogador do Sporting perde muito no aspecto defensivo do jogo o que, em certa parte, explica o défice de títulos nacionais face aos rivais Benfica e Porto, mas a magia do futebol… essa continuará a crescer na relva de Alvalade.
O guerreiro azul
Como um relógio, o jogador à Porto joga futebol simples, de um ou dois toques e circulação permanente, mais defensivo do que de ataque, mas de uma consistência assinalável. Desloca-se sempre em velocidade e é incansável aquando do momento da transição defensiva. No momento ofensivo privilegia o passe e consequente desmarcação para a tabela, sem que tal esforço descure uma eventual recuperação defensiva. Sem ser um colosso tecnicamente, o jogador à Porto é rigoroso tacticamente, gere o jogo de forma abnegada, sempre cauteloso de uma eventual investida adversária (mesmo com o resultado em 3-0 a favor), encarando cada jogo como se de uma final se tratasse. Nenhuma bola é dada como perdida e mesmo aquelas que são escandalosamente inalcançáveis redundam na utópica tentativa de recuperação com jogador em sprint geralmente terminando num carrinho desesperado contra os placards publicitários, levantando-se debaixo de forte aplauso.
Em suma, o jogador à Porto vive numa luta permanente, não tendo qualquer complacência ou misericórdia com o adversário. Esta busca cega pela vitória poderá resultar, por vezes, nalguma agressividade excessiva que é devidamente justificada pelo sentimento de revolta das gentes do norte face ao poderio da capital, cenário amplamente reforçado pelo seu lendário presidente. Quando bem orientado pelo seu treinador o jogador à Porto é um perigo para qualquer poeta do futebol e este século já viu estes guerreiros azuis levantarem o mais precioso dos troféus, sempre com o mesmo espírito à Porto, humilde lutador numa batalha sem fim.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















